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Editorial

Editorial – As ruas como sentido interno

Típico brasileiro nascido em um apartamento no início dos anos 80, fui eletronicamente criado pelas ondas do rádio e da TV. Somente no final da adolescência passei a ter contato com a vida urbana, bem como com as artes plásticas, literatura e música. O excesso causado pelas informações e a excessiva fantasia interna, colocaram em mim a necessidade de descobrir nas ruas e na vida em contato, um sentido mais firme para a existência. A cidade propiciava uma narrativa literária, imaginativa, ora sublime ora melancólica, com e sem acesso, e isso, no início dos anos 2000, era o que me alimentava. Fazia comunicação social  na Universidade Federal de Juiz de Fora, frequentava pubs indies, tinha redes no mirc, apresentava e assistia festivais de música, sarau de poesia, além participar dos comes-e-bebes em vernissagens com entrada franca.

Desajeitado, não possuía coordenação motora suficiente para fazer linhas retas nem com a régua. Por isso, tive que adaptar meu corpo para que a relação com a arte e as ruas fosse no mínimo, prazerosa. Desloquei o ponto de contato para os olhos e dividi com as mãos, escrevendo. Desde cedo, utilizei a escrita e a imaginação cênica como substitutos do desenho. Estudei jornalismo, participei de pesquisas acadêmicas concluindo mestrado, criei zines, fiz blogs, atuei como redator publicitário, dei aulas em duas faculdades, escrevi poemas e contos. E quando percebi a possibilidade de escrever também no concreto, passei a intervir na urbe em uma tentativa de me comunicar com a multidão, e também, com o específico.

A partir dos anos de faculdade (FACOM/UFJF), iniciei investigação sobre as possibilidades de expressão dadas aos indivíduos pelas tecnologias intelectuais e eletrônicas da comunicação. Com a introdução da Internet, como veículo de autonomia de produção de conteúdos, percebi a relação óbvia e de parceria entre as vias digitais e as narrativas do asfalto. E, muito mais do que direito ou não de se expressar, faltava às pessoas mais audácia do que meios para saírem do estado de conformação e desinformação, ao qual a sociedade foi estratificada nas últimas décadas: desejo, consumo e individualismo.

Acredito que dialogar com a cidade é estar politicamente presente no seu âmago e também, colocar as discussões que podem levantar pautas para aqueles que, pela cidade experienciam a vida. Questionando-a, interpela pela autonomia do cidadão sobre o coletivo, o reconhecimento de si, mas sem ser pelos valores externos. Quando projeto uma imagem em um muro público, pretendo que o observador tenha um eclipse interno: que sinta algo, além do bem e do mal, quando em contato com aquela imagem que está em um lugar que não deveria ser/estar assim. Assim, o espaço possível está além dos suportes, meios, interfaces. É a conscientização sobre si, sobre a vida, que creio necessitar fazer incessantemente a transição, a passagem entre o externo e o interno e, se possível, desse para o primeiro. A arte, seu produto e a expressão, são aspectos que ora estão situados nas extremidades (atelier/museu), ora nas passagens (ruas), em trânsito por textos, fotografias e temas empregados nas instalações, nos objetos e nas ações.

 

João Paulo de Oliveira 

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