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A fome – precisamos de uma revolução alimentar

O texto abaixo é fruto de uma deriva fotográfica realizada pela Troyka Koletiva em janeiro de 2018, em Juiz de Fora. Depois de dez dias com as fotos, resolvi trocar uma ideia sobre a questão da fome e das possíveis soluções viáveis no microcosmos para diminuir seu impacto.

Passando por cima de tudo e de todos
A fome universal sempre querendo tudo
E com o tempo inteiro a seu favor
Um pulo nessa imensidão de famintos

Fome de Tudo (Nação Zumbi)


“Um dia as coisas vão acabar se acertando”, essa é uma expressão de otimismo que parece não ser a verdade pela qual mais de 800 milhões de pessoas vêm passando nesse exato momento. Essa parcela considerável da humanidade está entre os que não se alimentam do mínimo necessário diariamente. E a fome, mesmo com tantas opções de fastfood, só vem crescendo. Inclusive, desde 2003 não aumentava tanto.

Apesar de bolhas de consumo mais moderado da natureza, desde o implemento do sistema de extração e produção capitalista, o que repomos não chega nem perto do que tiramos ou melhor, perdemos ano a ano. A cada ciclo de 365 dias  jogamos fora 1,3 bilhão de toneladas de alimento no mundo. Cerca de 30% do que é produzido no mundo acaba sendo jogado fora. Se um a cada sete habitantes passa fome na Terra, só o que é jogado fora daria para alimentar toda essa gente e ainda sobraria mais de quatro vezes o número necessário para sanar a fome dessas pessoas. No Brasil, segundo estudo de 2016, são 41 mil toneladas/ano, nos colocando no top 10 do desperdício alimentar planetário.

Além da perda consciente do excedente produzido pelo agronegócio (quanto mais alimentos disponíveis para venda, menor o valor em sua unidade e com isso, muitos grandes produtores preferem jogar fora seus produtos a transportá-los para a venda), fatores climáticos também contribuem com esse número. E quando olhamos para o que seriam esses fatores, mais uma vez fica clara a mão do sistema e do homem: perda da biodiversidade, impactos na biodiversidade, impactos no uso do solo, na questão da água, da escassez da água, e também a questão do clima, das emissões de carbono. Todos esses itens fazem parte da cadeia para o lucro do agronegócio. Ele não pode ser pop. Ele não é bom para a sociedade, mas sim para seus financiadores.

E a Xepa?

Em todo o país, as casas legislativas têm leis não aprovadas e em tramitação que travam o tratamento e o destino dados ao alimento, seja ainda no prazo para o vencimento ou pouco após. Entretanto, algumas iniciativas populares isoladas e de grupos organizados como o Disco Xepa tentam dar conta de diminuir, mesmo comunitariamente, o desperdício diário de alimentos. Mas muitas vezes o destino de quilos de frutas e verduras é o aterro sanitário, pois a conscientização sobre a possibilidade econômica e qualitativa da xepa e a penetração dessas redes ainda não se massificaram. Ou seja, não são políticas públicas e não fazem parte da educação básica e cidadã em nosso país, o combate ao desperdício e o incentivo ao aproveitamento do alimento. Muito pelo contrário. O estímulo constante ao consumo efêmero acaba por contribuir para a alienação quanto à revolução alimentar e social urgentes.

No Brasil, além do desperdício, ainda precisamos olhar com muita atenção a questão dos alimentos servidos nos nossos pratos afinal, somos os campeões mundiais do agrotóxico. E não só isso, abrimos espaço para corporações internacionais de comercialização de sementes que mantêm o homem do campo em suas mãos, pois se utilizam de armas bioquímicas que matam as sementes crioulas (nativas), impedindo a renovação natural do ciclo agrícola. Se houvesse uma separação entre os interesses de pequenos grupos e os que nos governam, uma pergunta óbvia seria o quanto a política do agrotóxico impacta no sistema de saúde e claro, na vida emocional e social dos brasileiros. São vários os tipos de câncer e outras doenças que se manifestam que, ao lado da monocultura predatória, multiplicam os fatores que pesam na emergência da transformação alimentar nacional. Não há políticas públicas claras para o incentivo a hortas comunitárias, muito menos, para outras ideias que possam dar qualidade e também, por que não, reduzir os custos da alimentação. Cada vez mais, as cooperativas campesinas estão sendo desestimuladas e a produção acaba se concentrando na mão de redes de distribuição que, por sua vez, têm em seus quadros associativos latifundiários, políticos e empresários de todo o país. É um ciclo que alimenta o poder econômico e é transferido para a vantagem desproporcional e individual tanto nas eleições, como no cotidiano das instituições públicas, que nossos representantes acabam conferindo a seus fiéis escudeiros.

O que fazer?

Já há alguns anos, redes começaram a brotar em determinadas regiões do país, produzindo alimentos orgânicos tanto no campo, quanto para a vida urbana. Jovens, muitas vezes provenientes de universidades e institutos federais no interior, têm se associado em vida e cultivo para a criação de soluções saudáveis e viáveis para a fome. Entretanto, a falta de um estímulo institucional firme ao debate, reduz a boa nova a seletos e privilegiados grupos sociais. Portanto, se faz mais do que necessária a organização, via poder público e sociedade civil, de redes comunitárias de informação e difusão de conhecimentos para o aparecimento da questão alimentar como central para o presente-futuro, mas para muito além das classes sociais mais abastadas que já vivem essa realidade de alguma forma. Que a permacultura chegue às favelas. Que os bancos de sementes possam alimentar a agricultura familiar. Que possamos ter a consciência de que as comunidades em torno das feiras têm todas as condições para se organizar e garantir, por exemplo, alimentos comunitários a partir da xepa. Da mesma forma, saber que redes locais em todo o país podem organizar hortas comunitárias, garantindo convivência e cultivo coletivo de alimentos básicos ao dia a dia. E além disso, que possamos nos comunicar para que o aprendizado sobre a terra e o seus frutos possam ser coletivizados e a vida possa escapar ao espiral da morte que o capitalismo tem nos levado.

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