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Arte, Artes, São Paulo, Urbano

Pixando com Doria [Suíte]

VEJA O VÍDEO DE DÓRIA LANÇANDO O NOVO PROJETO DE ARTE URBANA EM SÃO PAULO NO FINAL  – OU CLIQUE AQUI

O texto abaixo foi publicado entre o dia 24 e 25 de janeiro. Hoje, 26, Dória lançou projeto para ocupação da cidade por murais de grafite. Abaixo foi realizada uma análise das ações do prefeito de São Paulo, resultando em uma tese de que, mesmo perdendo o controle, ele conseguiu tiçar a guerra entre pixadores e grafiteiros; criando valor social pela estética e não pela ética, justiça e pertinência. Ao mesmo tempo, provocou uma onde de criatividade onde ele é o alvo, mas ainda assim, conseguiu valorizar locais e artistas e proporcionou uma onda de produção. Há preconceito social e luta de classes escondida no amor da classe média média paulistana pela cultura negra e da periferia. 

A expressão urbana é ao mesmo tempo um questionamento claro do status quo, como também, de um sistema simbólico que ultrapassa ruas e vêm parar até na gramática. Afinal, “pixar” é com “ch”, mas na mistura da língua do asfalto com a que vai para ao muro, ao papel ou à tela, quem domina é aquilo que nós temos de latente e primordial: a oralidade. Assim, quem escreve, escreve como escuta e fala e nisso, quem manda é o X. Na era pós-industrial, os muros construídos pelos proprietários se tornaram a ferramenta mais sublime da comunicação democrática. Apertar o pino e preencher o concreto do outro é a fronteira possível para a expressão de milhões, justamente, separados da vida “real” e seus ambientes esteticamente bem pensados da selva do comum. Quantos já não morreram, apanharam ou sofreram sérias consequências simplesmente por passar a tinta numa parede vazia?

pixo-pkn

Pixo de Fernanda Toledo – PKN

Não é de hoje, mas a comunicação tem se tornado cada vez mais estratégica para qualquer instância em nossa sociedade. Seja política, econômica, coercitiva ou mesmo, artística, pensar e formular a maneira de se dirigir, de aparecer e se comunicar é o fundamental. Por isso, a estratégia do prefeito de São Paulo, uma mistura de Chiquinho Scarpa com Dorian Gray, inflado por anos de Amaury Jr, chamou a atenção logo de cara, provocando reações enérgicas de parte da sociedade paulista e mesmo, brasileira. Uma maneira de colocar em foco um personagem através de um tema de “menor” importância, mas com muito potencial de polêmica. Apagar pixos e grafites não mata ninguém. Porém, o tempo e a grana que se perde nessa discussão, isso sim, esconde muitas outras ocorrências e deficiências sociais e políticas de uma capital como São Paulo e de um sujeito, como Dória. Além disso, institucionalmente se reforça aquilo que está lá no final do primeiro parágrafo desse texto: o estereótipo, o preconceito e a ação violenta por parte de agentes do estado, mas também de cidadãos de bem que desejam “limpar” a cidade. Limpar também a selva do comum.

Legalmente, ‘pichar’ é encarado como um crime ambiental. Porém, em um âmbito ético, a mídia capitalista conseguiu construir uma imagem na qual o pixo se tornou uma espécie de assassinato do concreto – onde crime, criminoso e criminalização são facilmente descritos como marginais, periféricos, pretos, pobres, sujos, revoltosos. A dor de ver a insignia de um ‘deslocado’ – afinal, a maioria das pixações são assinaturas exclusivas de anônimos, mexe com aquilo que aparentemente afeta de forma especial a todo cidadão de bem da Avenida Paulista: a propriedade. E mais: adicione a violação (ou ameça de) àquela voz escondidinha em nossa sociedade que carrega o nome de preconceito e também, à raiva que dá em ver a propriedade de alguém – suadamente conquistada a custas de outras pessoas ou mesmo, de um rica herança, marcada por um desconhecido, que provavelmente não teve méritos – nem mesmo seus antepassados, para viver ali e, por isso, envolto à inveja, picha (com “ch”) o que é meu, o que é do meu próximo, o que tem dono e até pode ser nosso, mas não é deles – daquele bando de marginais da perifa ou quem sabe, drogados e claramente comunistas. Mas o papo não termina por aqui. Não pode. É uma amálgama de pontos e poréns que fica até difícil saber por onde começar.

O legado e o mercado: do pixo ao grafite

Voltando à comunicação, é interessante pensar o quanto é normal o apagamento do que passou para que o novo possa prosperar. Não à toa o ISIS e o Talibã fizeram isso lá no oriente médio, bem como, os católicos fizeram aqui na América Latina e o fim da União Soviética, proporcionou as maiores quedas e implosões de estátuas e ídolos da história. E o mesmo se deu com o grafite do mural superando o grafite do pixo. Uma questão inclusive de mercado. Pega-se o que há de fantástico e espontâneo na cultura marginal e a goumertiza, incorporando conceitos, marcas e pessoas das elites. O inaceitável se torna objeto de desejo quando adocicado pela possibilidade de vida e lucro. Apesar disso, a confusão estética do ato espontâneo e daquele pago e planejado, também acaba esbarrando na caretice conservadora e cega que ou enxerga pobres ou problemas com drogas e autoridade. Portanto, a primeira ação de Dória, em compadrio com seus fiadores, os homens e mulheres de bem de São Paulo, é, então, apagar o legado de Haddad? Não é bem isso que acontece nem o que irá ocorrer.

Na última década, São Paulo se tornou referência mundial em termos de murais a céu aberto. Talvez apenas Londres (por causa de Banksy), Berlim e Milão fizessem parte desse hall de cidades para qual as pessoas viajam exclusivamente para ver os muros e paredes pintadas. E aquilo que era revolta, brincadeira e arte, com o tempo se tornou negócio. O mercado da arte teve que se reinventar, afinal quadro e escultura ficaram muito pesados para o comércio suspenso e personalizado do século XXI. Muitos grafiteiros levaram sua “marca” para outras terras e até produtos. A latinha deixou de ser subversão e passou a ser subvenção. Uma pequena elite artística (vinda da onde fosse, mas com aquela pegada do gueto) despontou e renovou o quilate da obra de arte. Seja por turismo (como no caso de Banksy que pode ser visto aqui, nesse filme) ou por estratégia de comunicação com a juventude, o grafite e a arte urbana se tornaram um ativo valioso na transada sociedade pós-industrial. Na Paulista, por exemplo, há belos e gigantesco murais em seus prédios que são fruto de campanhas publicitárias de canais de TV, lanchonetes, instituições. Ela não tem que vender produtos, mas sim, um estilo e o capitalismo de final de século (um neoliberalismo que parece progressista, mas é a ilusão individualista), adora a liberdade, as artes, o espontâneo e claro, o urbano. Ser visto e admirado como um painel grafitado é o que muitos perfis querem seja no Instagram, YouTube ou Facebook. A mais-valia contemporânea pode ser medida pela audiência que cada um alcança em suas próprias redes. As marcas e empresas se utilizam disso para se autopromoverem oferecendo presentes e dando a ilusão de ser possível para todos, porém sendo realmente possível para meia-dúzia.

Ainda em 2009, sob a égide da administração Kassab e com a eminente Lei Cidade Limpa iniciando seus trabalhos há pouco mais de dois anos, a polêmica em torno dos murais serem utilizados como peças publicitárias acabou sendo resolvida pela própria prefeitura, crendo e confabulando para que São Paulo  “se torne uma galeria de arte aberta, capital mundial do grafite, da arte pública, permitindo a expressão do chamado artista de rua”.  Surfando no profissionalismo, sucesso e transgressão pelo qual a arte de rua acabou evocando, tornando-se inclusive tema de Bienal  e de várias galerias da Vila Madalena, em 2015, Haddad resolveu dar a 13 de maio aos grafiteiros.  Ou seja, a dimensão pela qual a coisa tomou, levou ao entendimento do paulistano de que aquilo ali, que geralmente é confundido com subversão, mas que se tornou um caviar urbano, era obra e fruto do prefeito petista. E que sim, a cidade estava “suja” por invenção daquele que deve ser apagado da história de São Paulo, tal qual Dória finge que faz com esses mesmos desenhos na avenida. Segundo Haddad, finalmente, a cidade estava se tornando aquilo que a administração Kassab já pretendia: um museu contemporâneo a céu aberto.

Assista ao excelente documentário “Pixo”:

Reserva de mercado e valorização curatorial

A melhor maneira – para uma mente racional e retilínea, de chamar atenção e valorizar alguma coisa ou tema, é gerando polêmica. Acusações e defesas apenas fazem com que a situação viaje para mais e mais lugares. Seja pelas redes sociais ou mesmo, pela imprensa tradicional. O prefeito criou (e sabia que o faria) uma guerra contra os grafiteiros, mesmo aparentemente, mirando os pixadores – aqueles realmente excluídos; que realmente têm discurso de revolta e necessidade social; que se colocam não só por fama, muito menos por dinheiro. Como todo mundo hoje em dia cola com nóis das quebradas e a tinta cinza de Dória atingiu a todos sem discernimento, São Paulo é agora um mundo criativo em ebulição, no qual o prefeito pode ter aparentemente perdido o controle (essa perda é programada e possível), mas ganhou uma gama imensa de criatividade e exaltação para a arte urbana de forma espontânea e mais, gerou certo misticismo e mito em torno da Avenida 13 de maio. Grafitar ali é uma espécie de prêmio e assim será, seja para o subversivo ou mesmo, para o artista pica grossa convidado para estar ali e isento de qualquer polêmica, pois está no mercado e não mais no pó da rua.

Desde sempre a prefeitura indicou que iria deixar alguns murais sem serem tocados. Isso lembra bastante o que aconteceu em alguns cidades e localidades na Inglaterra. A valorização de Banksy se tornou tão importante para a economia de determinados lugares que as prefeituras não só fizeram seguro das obras, como as protegeram do próprio artista que adorava desfazer sua arte, que naqueles muros e paredes, não tinha nada de efêmera para os planos financeiros da região. Dória já indicou Eduardo Kobra como o queridinho de São Paulo, único artista nominalmente citado pela prefeitura. Em seu Facebook, o recordista mundial ainda não se pronunciou sobre a situação.

eduardo-kobra

Enquanto isso, Gustavo Cortelazzi, artista desconhecido até então, entrou na polêmica de forma interessante e abrindo o diálogo para outras frentes, questionando a “guerra” provocada entre pixadores e grafiteiros; a vaidade e a posse dos últimos em torno de obras que em realidade, não os pertencem:

“ONTEM MEU PINTADO DE 7 METROS FOI APAGADO NA 23 DE MAIO 😱

E o que eu acho disso?
Acho que graffiti é assim mesmo!!!!

É uma arte efêmera! Boa enquanto durou e que se renova!!

É triste? É chato?
É sim, não vou te falar que a sensação de passar em frente em ver ele ser apenas um cinza me deixa contente…
Acho que a prefeitura está errando em respeito a esse lance de sair apagando tudo o que ver pela frente…fora a guerra que está querendo travar com nós grafiteiros x pixo…isso não existe! ISSO NÃO PODE EXISTIR!!!! Viemos do mesmo sentido e isso não pode acabar….e não vai! Fiquem sossegados!

Mas por outro lado vejo uma amiga que estava a pelo menos 3 meses na fila de um Pré-Natal e sem esperança de ser atendida até o dia do parto…ser atendida em 2 (dois) dias após a posse do tal tão mal falado e playboy prefeito!

Cara, eu quero meu povo feliz, educado e com saúde….e quando isso acontece eu nem ligo de ter que refazer toda semana as minhas artes!!!!

É isso que eu penso sobre esse lance de apagar…”

Sendo assim, ao mesmo tempo em que ganhou mídia, Dória criou uma guerra entre nichos de um mesmo pólo, gerando não só discórdia, mas ampliando a produção espontânea e valorizando os muros especiais que, a partir de agora, receberão autênticas obras de arte paulistana e estarão em breve, nos principais sites de notícias da cidade, do país e do mundo.

Atualização 26/01 – 23h:

Dória lança projeto para povoar São Paulo com grafite:

fridapnina

Discussão

Um comentário sobre “Pixando com Doria [Suíte]

  1. Sinceramente os pichos e os graffitis fazem parte de sao paulo e tanta coisa pra fazer pela educação, saúde etc…e a prefeitura jogando dinheiro fora , e o Doria nunca vai conseguir vencer os pichadores e graffiteiros somos muitos,resposta pichadas para a sociedade omissa e administrações corruptas.

    Publicado por Lincoln Dingo Brown | 27/01/2017, 16:48

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