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Metá Metá + Siba no Circo Voador – a música como experiência

Trabalhos autorais com consistência, música e farta experiência sinestésica para o público, Metá Metá e Siba fazem show histórico no Circo Voador (RJ), na noite deste último sábado, 5 de setembro.

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Muita gente ficou surpreendida quando, ainda no lado de fora do Circo, os acordes característicos do Metá Metá iniciaram a noite na tenda na Lapa. A maioria talvez tivesse imaginado que o cantor pernambucano seria aquele que abriria a noite. Houve quem se sentiu confuso com a diferença de intensidade entre uma e outra atração – a força e a guitarra acelerada do Metá Metá, em contrapartida à voz melosa e aos acordes contemplativos de Siba. Entretanto, o final da apresentação dupla mostraria que o percurso compreendido pelos dois grupos iria mais do que fazer sentido, era o dínamo necessário para transformar tudo aquilo ali em um baile realmente solto!

Com a formação mista no palco e a chamada para uma ciranda punk, o público de alguma forma descansado pelo ritmo do pernambucano, se soltou em energia sinestésica e plural que transformou a tenda do Circo Voador em um condensador de bailados e sorrisos – êxtase puxado pela cultura e tradição do nordeste e encarado pela necessidade de se viver experiências corporais que tragam também (e por que não), política, intelectualidade, espiritualidade tudo junto, em um liquidificador cultural e livre. A imagem de centenas de pessoas se jogando em uma massa de alegria e ritmo é algo muito interessante, ainda mais quando não se está ao lado de um trio elétrico, muito menos, em um show punk. Metá Metá e Siba poderiam ter vindo ao Rio em datas diferentes, porém apesar da ansiedade em querer ter um tempo reservado para cada projeto, a experiência de tê-los ao mesmo tempo no palco talvez tenha sido uma das mais interessantes dos últimos anos para aqueles carentes de música original e que faça dançar.

Ainda não era meia-noite quando a força da voz de Juçara Marçal ecoou ao lado dos acordes metálicos e quase “metaleiros” de Kiko Dinucci (guitarra) e Thiago França (sax). O Metá Metá fez com que o culto aos Orixás para muitos não seja mais um mistério nem um perigo social como certo setor da sociedade tenta apontar. Saudar Oyá (Iansã), Obaluaê, Oxóssi e Yemanjá é também fomentar arte e cultura brasileira, não só religião nem só África. Entender o que cada entidade representa é também uma forma de compreendermos nossos antepassados, nossa herança africana, nossa historicidade viva e desconhecida, encapotada pela massificação efêmera e ocidentalização cansativa. Hoje, projetos como Metá Metá provam que as “três raças” na verdade, são todas em uma possibilidade de reunião, muito mais do que cisão. Neles, regionalismo e globalismo tentam se expressar através da música, das artes corporais e até nas vestimentas. E isso, extrapola o campo religioso e se insere na necessidade de vivermos novas e contundentes experiências dentro de nossa vasta e rica cultura.

A originalidade do som e o conteúdo das letras recordam a amálgama glorificada pelo grande Chico Science. Tal qual no manguebeat, Dinucci e seu clube da encruza propõem a miscigenação entre ritmo e tradição; entre as referências do rock´n roll e o terreiro de candomblé. Em termos musicais, a guitarra e o canto potente e ritualístico de Marçal constroem no corpo e nos ouvidos um novo, um terceiro que não é só peso nem é só macumba. Essa, diferente dos projetos atuais em que a percussão afro se tornou cerne, aparece de forma deslocada para o canto, para a participação da voz no conjunto harmônico. A tradição afrobrasileira está nas letras que em sua origem, são pontos religiosos de saudação e evocação de orixás.

Uma das tristezas de ontem foi não ter ficado pronto a tempo para compra o vinil do álbum “De baile solto”, trabalho lançado no meio de 2015 por Siba. O cantor e cirandeiro de pernambuco resgata no disco seus primórdios como guitarrista, mas os agudos não deixam de dar o lugar devido ao verbo, à palavra, elemento presente e principal da construção artística de Siba. Segundo o próprio, em “De baile solto”,  “aqui e acolá as palavras se espalham um pouco mais do que o costume, inspirado na elasticidade da música congolesa, que é também a referência para as guitarras entrelaçadas, o gosto pela saturação do som, a dança como finalidade auditiva, a vontade de que nunca se acabe, elementos igualmente presentes na música ritual e de rua do Brasil”.

Siba parecia ter um certo rancor com algum tipo de receptividade do público no Rio. Há dois meses, em um show promovido na Audio Rebel, o cantor reclamou de suas decepções nas terras cariocas – o estúdio foi muito bem lembrado e saudado pelo DJ Lencinho como um das principais responsáveis pela vinda dos artistas e vitrine para esses projetos importantes e significativos da contemporaneidade da música no Rio. A dificuldade em se conseguir datas em locais abrangentes como o Circo e ao mesmo tempo, as experiências com casas nem um pouco lotadas, foram dissipadas em uma noite que foi difícil conseguir ver vazios, seja no chão seja nas arquibancadas e também, por que não, na fila para a cerveja. Metá Metá e Siba trouxeram para o público do Rio emoções que perdurarão nos corpos e nas lembranças por muito tempo e que serão, naturalmente, ampliados em suas redes e cotidiano.

No palco, ambos fizeram questão de a todo momento agradecer ao público. Entretanto, somos nós quem devemos saudá-los, agradecê-los e confiar de que afirmam a música como tradição brasileira que é ainda maior que qualquer escalação de time ou Copa do Mundo. É nossa riqueza, nosso dínamo e por que não, nossa verdadeira revolução!

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