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Série Vodou – os egum do Benin

Leonce Raphael Agbodjélou (1965) é um dos poucos fotógrafos africanos que frequentam galerias europeias e americanas. Nascido em Benin, mora e tem como base Porto Novo, a capital do país da África Ocidental que tem como característica histórica ser um dos locais do onde mais partiram homens, mulheres e crianças para o cativeiro no Brasil e em toda a América.

Seu pai foi o premiado e renomado fotógrafo Joseph Moise Agbodjelou (1912-2000). Apesar de ter sido seu aprendiz, Leonce Raphael adquiriu um olhar próprio, com modos contemporâneos e inovadores. Fotografando em médios formatos, em um estúdio externo, o seu projeto “Vodou Series” teve como foco os Egum-gum mascarados. No Brasil, herdeiro em seus costumes, o equivalente serio o Egum – o espírito das pessoas falecidas, em um culto específico dentro dos terreiros de candomblé, diferente do conferido aos Orixás, logicamente.

No Benin, são os ancestrais do povo e da língua Yorubá. Os Egum-gum começaram a aparecer nos funerais entre os séculos XI e XIV e são aqueles que dão a passagem do morto para o mundo espiritual. O Egum participa de festivais anuais nas comunidades de língua Yorubá, principalmente, na estação chuvosa, pois estão ali para limpar a cidade. Entretanto, podem ser chamados a qualquer momento quando a vida comunitária é ameaçada.

Eles desempenham vários papeis, podendo ser desde antepassados desconhecidos, conhecidos ou personagens históricos como assassinos, comandantes, bruxos e sacerdotes. Em nosso país, talvez se equivalessem aos preto velhos, caboclos e outras legiões. Alguns fazem milagres, outros são acrobatas e por fim, os alabaia, aqueles que usam o pano. Todos podem entreter os espectadores com proezas mágicas, fora o encanto da beleza e estética visual de suas roupas.

Apesar de Porto Novo ter muitos de origem Yorubá, os praticantes do idioma e cultura foram subjugados pelos da etnia Fon. Antes, os Egum-gum eram aceitos publicamente como faces dos deuses da cultura Yorubá, reconhecendo-se sua identidade social e espiritual. Agora, seus rituais e crenças adquiriram práticas Fon. Todavia, o surgimento das igrejas pentencostais nos anos 1990 em toda a África Ocidental, um novo desafio aos Egum-gum surgiu com a demonização da mística pelas igrejas. Acusando-os de perigosos, a participação destes importantes personagens da cultura local começou a ser rejeitada com veemência. Apesar disso, os Egum-gum sobrevivem e tentam responder à opressão das novas igrejas elaborando contra-narrativas que localizam a memória Yoruba, personalizando histórias e rituais em perfomances públicas que apresentam valores éticos e comunitários – que são também os valores dos ancestrais e mesmo da infância de muitos que os demonizam.

Leonce Agbodjélou explora a dinâmica dessas tensões em uma grande série de retratos individuais de Egum em que confronta as “entranhas e o entre”, qualidade manifestada pelo espírito visitante e temporariamente manifesto com a função de auxiliar e orientar os mais jovens que pertencem às suas linhagens. Nestes retratos captura ambas personalidades, a do indivíduo e de seu ancestral, em uma indefinição quando aos limites entre o mundo dos vivos e dos mortos.

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