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O Passeio é Público – Evento recria área sociável com arte, cultura e economia criativa

Através da participação colaborativa, grupo de produtores e artistas dá via a um dos locais mais importantes da história do Rio, o Passeio Público.

Passeio Publico 11-07-37

Criança participa da “Oficina de Hortação” – quem sabe, num futuro não tão distante, os pais coloquem seus filhos nesses tipos de atividade. Mais do que muitos esportes, a prática das aulas poderia acontecer em casa também.

“Uma pena a vida não acontecer todos os dias” – talvez esse seja o pensamento de muitos produtores culturais e daqueles que aproveitam suas artes e encontros. Entretanto, o cotidiano ameaçado pela possível falta/necessidade de capital, pela constante afirmação da hierarquia e com vários de nós sendo extorquidos de direitos básicos, muitas vezes retira o gosto pelo viver a plenitude da cena urbana e esconde uma percepção da vida pública, artística e cultural não acontecendo. E o pior: não só o indivíduo e sua comunidade são praticamente obrigados a se excluírem do convívio espontâneo, mas as próprias áreas onde o comum deveria acontecer são degradadas, marginalizadas ou mesmo, aparelhadas de forma a não permitir uma disciplina ao corpo que não seja apenas a de passar, nunca permanecer. Para entender este último ponto, basta perceber a guerra aos bancos e assentos em locais públicos. Repare!

Passeio Publico 11-07-16

Ao meio-dia, a professora do curso de Belas Artes da UFRJ, Jane Santucci, deu uma verdadeira aula sobre as transformações e a importância social do Passeio Público para a cidade do Rio de Janeiro. Portanto, a necessidade emergencial de sua re-ocupação.

Aproveitamos mal a possível relação com o corpo físico de nossa sociedade, a cidade. E ainda, muitos são hostilizados e fragilizados quando tentam romper com o funcionamento do relógio de asfalto e fumaça – da arte e expressão urbana ao direito à manifestação. As horas quase forçadas de trabalho e a precariedade que contém muitas vias e mobiliários nos fazem ter um olhar para a cidade muito mais como um obstáculo a se superar do que um lugar comunitário. Fora a opressão da multidão, dos carros e dos agentes das leis, os transportes “públicos”, sua engenharia e estrutura, coisas corriqueiras que contribuem ainda mais para o cansaço antes e além do trabalho, do estudo, da burocracia.

Neste sábado, 11 de julho, depois de muitos anos, o Passeio novamente se tornou Público. Mesmo que não tenha recuperado de vez a essência no cotidiano, ao menos em uma tarde e noite, o nome do primeiro jardim planejado das Américas, no grande espaço construído ainda no período colonial (1783) e mais tarde restaurado por Dom Pedro II (1865), novamente fez sentido. Até a construção do Parque (aterro) do Flamengo nos anos 1960, o Passeio Público tinha uma área que fazia (a pé) a ligação da Cinelândia com a Baía de Guanabara. Hoje, as pistas de velocidades impendem a chegada fácil à borda original.

Apesar de sua localização privilegiada, o paisagismo raro e a brisa suave que lhe caracteriza em uma cidade que chega aos 40º como se toma um ônibus, o Passeio é cercado em grade e com uma única entrada e saída, deixando o fenômeno da passagem e contendo a obrigatoriedade do trajeto. Seus cantos pouco iluminados e seu vazio projetam uma situação de espanto e repulsa, não convidando aqueles que queiram o convívio, muito pelo contrário.

É interessante notar que o Passeio Público esteve abandonado ou mesmo fechado em momentos em que a relação com as liberdades individuais se tornaram escassas no Brasil. Projetado por Mestre Valentim 25 anos antes da chegada da corte portuguesa em 1808, o Passeio Público foi o principal local de sociabilização e trocas do final do século XVIII e XIV no Rio de Janeiro. Muito do que concebemos como a história e a genética de nossa sociedade (além da carioca) se fez em trocas e relações a partir dos encontros no Passeio Público – a parte quase final da cidade boa parte de sua história, mais ainda assim, ligada ao centro nervoso das decisões. Seja ao acaso ou programado, pelas artes, política ou por conta do amor e também, da sacanagem, muita coisa aconteceu ali ou por ali nos últimos 250 anos. Todavia, é triste relacionar os tempos tenebrosos e de abandono com as ditaduras do século passado. O Passeio Público permaneceu malcuidado em vários momentos. Impressiona que os mais duradouros foram no Estado Novo (1937-1945) e depois com o seu fechamento de 1969 a 1988. Esse último dado não só metaforiza o momento (do AI 5 à Constituição de 88), como também reafirma a necessidade de ocuparmos as praças não pela simples contemporaneidade, mas porque ela só tem sentido sendo pública e comunitária. Pois, mesmo sem vivermos uma ditadura tão tangível, a sociedade do trabalho e do efêmero, baseada nas luzes do espetáculo mediado, nos obriga a esquecer que é possível parar, olhar, praticar e conviver mesmo nos dias de semana.

Por um Passeio realmente Público

“O que muda quando mudamos de lugar? É o espaço que nos muda, ou somos nós que mudamos o espaço?”frase que abre a descrição do evento “O Passeio é Público” no Facebook.

Semanas antes da realização da retomada do Passeio, produtores e coletivos se reuniram no local para pensar nas estratégias de ocupação. Música, artes plásticas, cultura e economia criativa foram eixos acertados para guiar as ações e claro, motivações para o evento. O projeto surgiu como espécie de “start” para reativação do espaço em um formato multicultural, reunindo artistas, produtores e projetos de diversas partes e tradições no Rio. A ocupação do Passeio Público se deu por exposições de artes, discussão cultural, troca de saberes, música, gastronomia, saúde e bem-estar, além da integração comunitária e uma renovada opção de lazer e convivência.

O grupo reunido em torno de uma rede de produtores-ativistas, artistas e colaboradores propôs entender a cidade a partir do olhar plural daqueles que nela transitam e muitas vezes estão de vistas fechadas para aquilo que a mesma os oferece. De que forma podemos nos ver como utilizadores e transformadores do espaço público; o que podemos fazer juntos para acontecer a cidade que desejamos, que queremos?

E o ímpeto inicial foi utilizado, justamente, sobre um local de fácil acesso e de difícil permanência – até então! São mais de 230 anos de história e mesmo sendo um espaço agradável em meio a uma metrópole opressora, o Passeio “deixou de fazer parte do mapa cultural da cidade e hoje, encontra-se como um espaço ocioso, sem nenhum tipo de atividade em sua programação”. Assim, para “mudar o rumo dessa história”, foi reunida uma força tarefa de peso com união de produtores independentes, projetos e coletivos que pensam e repensam a vida na cidade, e já têm em suas ações a ressignificação ou sua tentativa, como praças e locais desprestigiados pelas políticas públicas.

Participaram da articulação e produção de forma totalmente independente do poder público e privado os seguintes grupos/coletivos/produtoras: SerHurbano, Faz na Praça, Sarau do Escritório, Quermesse, Perto do Leão Etíope do Méier, Ocupa Lapa, etnohaus, Fábrica Nômade Sonora, Rádio Libertá, Circo Voador, Subsoloo e Trama. O público carente de relações comunitárias espontâneas só tem a agradecer e pode até ajudar para que o fôlego continue e vá além do próprio Passeio Público. O desejo é que aqueles que participaram como público ou colaborador também possa espalhar a semente para que a ideia e o encontro se enraízem em outros territórios dessa cidade-estado que tanto necessita de carinho e expressão.

No evento “O Passeio é Público” estão fotos, vídeos, depoimentos sobre como foi o dia e também, nos próximos dias, as atualizações e as novas articulações para dar prosseguimento ao projeto. Visite também o site oficial do espaço, com muitas informações relevantes sobre o Passeio Público: passeiopublico.com.

Texto e Fotos: João Paulo de Oliveira

Discussão

Um comentário sobre “O Passeio é Público – Evento recria área sociável com arte, cultura e economia criativa

  1. Evento incrível! Foi muito bom tocar com o Relógio de Dalí! E essa publicação demonstra muito bem como foi o dia no Passeio! :D. Pra quem não conhece viu o show ou quer conhecer mais sobre o quarteto, essa aqui é nossa página no face. https://www.facebook.com/relogiodedali. VALEU!

    Publicado por Victor Ribeiro | 15/07/2015, 11:26

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