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Futebol, Jornalismo

O dia em que senti vergonha de ser Flamengo

Ontem, 12 de abril, tive a impressão de como somos tratados por um poder nada sutil, centralizador, e que a cada dia fica mais clara sua influência no repertório e na subjetividade de nossa cultura. Estou passando uns dias no nordeste. Comecei minha caminhada por Salvador, cidade que nunca havia visitado e agora, me pergunto como nunca tinha vindo aqui!

Era domingo, quatro e pouca da tarde, hora do futebol, algo institucionalizado pelo Brasil afora já há alguns anos. Na Fonte Nova (que hoje se chama Arena Itaipava Fonte Nova!), o tricolor baiano tinha a missão de empatar sem gols ou vencer o Sport do Recife para se classificar à final da Copa do Nordeste, alento para o campeão brasileiro de 1988, rebaixado no último campeonato.

Entretanto, comecei a ficar um pouco bolado e, consequentemente, sem graça, de ver desde o Pelourinho até o bairro Sete Portas, que os torcedores do Bahia tinham que se contentar com a transmissão do jogo pelo rádio ou com a “bolinha” surgindo na tela da Globo. Isso, pois o jogo que passava em quase 100% das TVs de bares e casas, era Flamengo x Vasco, pela semifinal do carioquinha.

Meu sentimento de pertencimento flamenguista, algo que bate realmente em vários momentos da vida e em diferentes partes do país e do mundo, inclusive, ficou minguado e sem sentido quando viu que a supremacia (?) do centro, do sul, como chamam aqui o que há pra baixo da Bahia, está claramente codificada no cotidiano de quem não está no Rio ou em São Paulo. Ao mesmo tempo, foi bonito viver o que vi no boteco em que assisti ao segundo tempo do carioquinha: homens cegos, vendo um jogo que não era o foco do seu coração e avisados pelo companheiro que escutava a partida ao rádio dos gols pró e contra o Bahia. Uma festa que surgia quase num grunhido, mas que um coração-ouvido atento sabia do que se tratava e contaminava a todos e de repente, gritos de “Bá – ê – á”, “Bá – ê – á”, abraços, beijos e sorrisos. Algo sem igual que tenho fé ser ainda mais forte quando a relação com a coisa é menos óbvia e comum. Lembro de um jogo pela terceirona em que o Tupi (de Juiz de Fora, minha cidade natal) virou pra cima do Juventus, o menino travesso, de São Paulo. Naquele dia (tinha uns 12 anos), vi a magia e a força que o futebol dá mesmo aos desdentados e desalmados. E isso, o poder que dá aquele deixado de lado pela ignorância e individualismo social brasileiro, praticamente, só acontece na arquibancada ou num balcão de botequim!

Ali, naquele boteco em que pude assistir o mengo empatar em um jogo que não recomendaria nem para o inimigo, fiquei com vergonha. Talvez fosse minoria, talvez não. A única expressão que ouvi em relação ao fato, ao jogo que estava ali para os olhos, foi quando Paulo Victor salvou o Fla. Um exaltado (talvez mais anti-fla do que vasco) chegou a comemorar, porém teve que se conter e ainda ouvir meu grito de “mengooo”. Todavia, o brado mais sincero que dei foi quando o Bahia fez 3 x 2 e pode sacramentar a ascensão à final do Copa do Nordeste. Juro que senti e gritei como se fosse tricolor. O grito emocionado veio da alma, veio de poder sofrer junto com aqueles martirizados e cerceados desse prazer simples que é ver o seu time jogar.

Eu me lembro de um momento da vida em que isso acontecia: ter que peneirar a cidade inteira para saber onde iria passar o jogo. Naquela época era rara a transmissão de jogões e no caso, só quem tinha antena parabólica conseguia assistir às partidas durante o campeonato. Entretanto, quando o futebol deixou de ser um mistério, uma oportunidade rara e passou e ser uma massacre semanal, nunca mais o Flamengo deixou de visitar a televisão. Algo, que na minha opinião, nem foi tão bom assim, no geral, pelas derrotas e pelo excesso e euforia que também cega.

Tanto em Juiz de Fora, quanto na Bahia, a desculpa que se dá é que em determinado período de formação da identidade regional, as rádios e TVs transmitiam os jogos dos times cariocas. Dizem que isso foi fundamental para que o imaginário local se identificasse mais com lá do que com o aqui. Mas estando aqui, queria era poder assistir e vibrar com os daqui, não com o que estou acostumado, além do exagerado “amor” ou vazio que também é lá. E assim, fui presenteado com a simplicidade da torcida pelo rádio, pela comunhão daquele momento de cegueira e oralidade. Apesar desse texto ser uma crítica, me sinto privilegiado de ter participado desse momento mágico e de criatividade. Uma benção nesses dias de 100% imagem.

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Durante a partida, fiquei sabendo que em Salvador, além de torcedores locais, você encontra flamenguistas, vascaínos, corintianos etc que torcem só para esses. Mas há também aqueles que torcem para os do eixo + um clube baiano. E assim, vendem-se camisas aqui divididas entre Bahia e Flamengo, entre Vitória e timão, por exemplo. Apesar dessa simpatia pelo centro, tenho absoluta certeza que o amor é bem maior pelos clubes locais do que, realmente, pelo Flamengo ou Corinthians, no geral. Eu mesmo, apesar de ser rubro-negro, se houvesse como torcer fielmente pelo Tupi de Juiz de Fora, não restaria dúvida que o faria e teria, no máximo, uma simpatia boa pelo Flamengo.

É muito bacana se sentir parte de uma nação imaterial como a da torcida do Flamengo, mas tenho certeza de que deve ainda ser mais interessante sentir o amor por algo bem próximo de sua raiz. Talvez se fosse carioca tivesse um gosto diferente pela coisa, mais próximo do coração do que a fantasia que é desejar algo mediado. A TV nunca vai substituir à ida ao campo de treino ou ao jogo mesmo, na convivência com o cheiro da grama do estádio, na exaltação e na liberdade de fala, na coletividade acontecendo, no movimento massivo de alegria e decepção, mas sempre com a certeza de que na próxima rodada, mesmo que o time tenha sido uma lástima, a camiseta estará lá novamente, o coração aqui, aflito e sincero esperando um alento para a alma. Não nego o Fla, mas me sinto um pouco culpado por vê-lo privar a sinceridade dos olhos, corpos e coração por Brasil afora.

Discussão

2 comentários sobre “O dia em que senti vergonha de ser Flamengo

  1. O texto é bem escrito, mas discordo frontalmente. O Flamengo é uma instituição que integrou o Brasil, aproximou as regiões e despertou paixões avassaladoras de forma espontânea. Não exiatia Globo, Internet ou algo parecido, o Flamengo fez surgir no brasileiro a consciência de sua capacidade, de sua importância e sempre serviu como uma forma do povo se orgulhar por poder competir e superar as elites dominantes, pelo memos na esfera esportiva. O FLAMENGO NASCEU COM A VOCAÇÃO DE ALEGRAR O POVO EM TODO TERRITORIO NACIONAL. O FLAMENGO NÃO É DO RJ, É DO BRASIL!

    Publicado por Alexandre Farelli | 13/04/2015, 20:54
    • Olha, talvez tenha parecido que sou pouco flamengo, mas essa não é a verdade. A questão ali é mais do que se obriga as pessoas a ver o jogo do eixo, do que contra a hegemonia ou história do fla. falo mais da dominação do que de futebol em si. Abrs

      Publicado por J P de Oliveira | 14/04/2015, 10:04

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