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Artigo, Jornalismo

Projeto online se transforma em HQ colaborativa baseada em William Burroughs

Nesta sexta, 20, será lançada em São Paulo, na livraria Monkix, a revista Bill. Ela é fruto do projeto de mesmo nome iniciado em 2013 através do site projetobill.com, criado por João Pinheiro. O autor que já havia publicado a biografia de Kerouac em quadrinhos pela Devir, dessa vez, conclamou os admiradores de William S. Burroughs e conseguiu reunir no site e agora, na HQ, trabalhos de autores e fãs de várias partes do Brasil baseados na obra e filosofia do escritor reconhecido como beatnik, mais pela amizade com Allen Ginsberg e Jack Kerouac do que pelos temas e linguagens adotas em obras como Junkie (1953), Almoço Nú (1959) e Queer (1985).

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Para Bill (1914-1997), os homens foram infectados por um vírus: a palavra. O autor de mais de 60 obras, escreveu em Revolução Eletrônica que “a palavra em si pode ser um vírus que atingiu uma situação permanente no hóspede”. Segundo Pinheiro, o escritor americano era um afccionado por escrever e tal como as imagens criadas em seus livros, palavras poderiam ser inseridas em qualquer momento ou superfície. “Ele escreveu com qualquer coisa que poderia fazer uma marca ou deixar um rastro, um efeito de fita ou um tiro de espingarda”, conta o autor e editor do projeto.

Veja mais informações no EVENTO de Lançamento do Projeto Bill criado no Facebook.

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João Pinheiro é Ilustrador, artista plástico, autor de histórias em quadrinhos e professor. O paulista é autor de “Kerouac“, (2011, Devir) e “O espelho”, de Machado de Assis em HQ (2012, Mercuryo jovem, em parceria com Jeosafá Fernandes Gonçalves). Fã dos beatniks, JP prepara paralelamente à revista, a publicação de uma nova HQ também baseada em Bill Burroughs, a ser lançada pela Veneta. Pela Devir, lançou a biografia de Kerouac em quadrinhos no projeto “Visões de Kerouac”. Com essa nova HQ, já seriam dois trabalhos sobre a vida e obra de um autor beat. Na entrevista abaixo, João Pinheiro fala sobre a possibilidade de se fazer uma terceira obra, dessa vez, inspirada na vida de Allen Ginsberg. O autor também comenta o envolvimento da literatura de Burroughs com as drogas, tema e ferramenta largamente utilizada na obra do escritor americano:

6-712{Amálgama Cultural} O que lhe motivou escrever/desenhar sobre Bill?

[João Pinheiro] Meu interesse pelos beats vem de longa data, mas o que me motivou a trabalhar especificamente com o Burroughs foi a leitura do seu livro REVOLUÇÃO ELETRÔNICA, uma espécie de ensaio, ficção e livro de receitas. Nele, William Burroughs parte de um princípio: o ser humano está contaminado por um vírus – a palavra. “A palavra em si pode ser um vírus que atingiu uma situação permanente no hóspede”, ou seja, o ser humano está contaminado, mas esta infecção não se apresenta como maligna, a princípio.

{AM} O processo se deu de forma colaborativa? Como ele ocorreu em seu desenvolvimento, desde a ideia à publicação. Como as pessoas participaram do mesmo?

[JP] Sim, colaborativo total. Inicialmente criei um site chamado Projeto Bill ( http://projetobill.com/ ) conclamando todos os admiradores da obra do titio Burroughs a participar. O site entrou no ar no dia 25 de julho de 2013. Várias pessoas começaram a comprar a ideia. Com o tempo, conseguimos reunir bastante material inédito, que pode ser visto no site citado acima.

{AC} Qual editora abraçou ou de que forma prepara o lançamento e a distribuição do material?

[JP] A revista é independente e será lançada em São Paulo na Monkix Livraria | Rua Harmonia, 150 – Loja 3| Vila Madalena | São Paulo / SP. Posteriormente vou distribuir em livraria especializadas em quadrinhos e revistas independentes. Também pretendo montar uma lojinha de venda pela internet.

{AC} O que conseguiu absorver neste tempo de pesquisa sobre Burroughs? O que aprendeu ao tentar interpretar a vida desta lenda Beat?

[JP] Na verdade, estou terminando um álbum longo, especifico sobre o Burroughs, solo, que vai ser lançada pela editora Veneta do Rogério de Campos. Um outro projeto, que também começou com o site, mas virou uma coisa maior. Durante o processo de criação desse trabalho eu pude mergulhar mais na sua obra, inclusive utilizando métodos semelhantes aos seus no processo de criação, o que me abriu muitas possibilidades novas. No geral, acho que o W.B. é muito subestimado, geralmente descrito apenas como um drogado pop que posava ao lado de bandas famosas; É claro que a droga e o vício fazem parte da sua vida e são indissociáveis de sua obra, já que em quase todos os seus livros ele discorre sobre o assunto, e em grande parte da sua vida foi um verdadeiro coquetel humano de várias substâncias da farmacopeia universal. Porém o universo Burroughiano vai muito além do que apenas um relato do mundo dos drogados, aliás, nada em sua obra pode ser entendido como um simples relato de suas experiências, já que em todo seu projeto literário e político questionou justamente a estrutura da realidade.

{AC}  O projeto Bill é uma sequência da bio do Kerouac?! Será possível uma trilogia com algo sobre Ginsberg?

[JP] A sequência do Kerouac seria esse álbum no qual estou trabalhando, e que mencionei na resposta anterior. Apesar de a abordagem ser bem diferente da que usei no álbum do Jack. Na história do Burroughs procurei focar mais em sua obra do que em sua trajetória pessoal. Inclusive citando várias de suas ideias sobre os métodos de controle e sua concepção de arte. Quanto a uma história sobre o Ginsberg, posso dizer que não descarto a ideia, mas não está nos meus planos por hora.

{AC} A participação de Bill entre os Beats é um pouco diferente dos demais. Como enxerga e de que forma o enquadra (se isso é possível)?

[JP] Eu acho que realmente ele não se encaixa nos beats, exceto pelo fato de ter sido amigo dos principais expoentes do movimento. O Claudio Willer destaca que o movimento Beat tinha uma caracteristica diferente de outros movimentos, como os Surrealistas por exemplo, que era a amizade entre seus membros. Realmente acho que não é possível enquadra-lo.

{AC}  O que pode destacar na produção de Bill?

[JP] Após seu primeiro livro JUNKY, a escrita dele seguiu uma direção fragmentária e delirante, resultado de suas pesquisas com o cut-up (em poucas palavras: recorte e colagem de textos, rearranjados de modo a criar um novo texto). Até porque ele usou muito da sua energia criativa, também, em outras mídias, como pintura, colagem, gravações manipuladas, colaborou em projetos cinematográficos, brincou com engenhocas estranhas como acumulador do orgone e a máquina do sonho de Brion Gysin. Seu interesse pela tecnologia não impediu que trabalhasse com ferramentas mais caseiras, como seu uso de tesouras e armas. Burroughs pode ter sido um escritor, mas para ele as ferramentas do comércio não se limitam às máquinas de escrever ou canetas. Ele escreveu com qualquer coisa que poderia fazer uma marca ou deixar um rastro, um efeito de fita ou um tiro de espingarda.

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