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Literatura

O Lado Negro da Terra – ep. 1

Há três anos venho pensando sobre o pós-petróleo e na sociedade em colapso que o capitalismo de fim de milênio construiu. A decadência aconteceu em larga escala. Ela foi inflada por um mundo globalizado e sedento pelo autoritarismo. A segunda década dos anos 2000 fez com que o homem voltasse ao tempo moral das bruxas. Por todos os lados do planeta, nas mais simples às mais complexas comunidades, a morte, o assassinato e a ostentação culminaram em uma das mais sangrentas e primeiramente, invisível guerra civil que a Terra talvez tenha podido e irá acompanhar. Irmãos contra irmãs, vizinhos contra conterrâneos, jovens contra velhos. A paz e o amor se tornaram bandeira do que viria depois. No antes, no antes era necessário fazer ajustes. A navalha piou nas terras abaixo do Equador por três anos e meio.

Ao lado de P.S. Kroati, consegui ambientar certa memória dos dias passados. Hoje, quase quatro décadas depois, pouca gente tem acesso ao que realmente foi arquivado na alma do povo brasileiro. Sobrevivemos, é bem importante ressaltar. Mas isso não foi exatamente um mérito, e sim, um martírio que não queríamos passar e que tivemos que nos acostumar. Os piores momentos, de fato, foram o que antecederam a queda moral do estado. A mídia conseguiu atrasar o relógio espiritual de todo um povo e isso não foi deixado de ser gritado por nós. Entretanto, a um sujeito iludido pelo pavor e pelo prazer da vitória, qualquer distorção se torna real, uma indústria completa de paranoias.

No agora, aquele que preferiu abandonar o senso da realidade lhe foi permitido. Ao mesmo tempo, quem quis seguir um caminho longe de qualquer contato humano, também pôde. A vida no envelhecer acabou trazendo benesses, mas ainda assim, dói pensar em todo o percurso para que isso pudesse estar acontecendo hoje. Não é uma decisão coletiva mais. É daquele crente ou descrente querer ou não deixar a companhia dos famintos. E eu não consegui deixar de querer comer com eles.

SZ

Assim, começarei a tentar situar a semiótica de O Lado Negro da Terra com uma narrativa pretérita e que como um relógio invertido, volta ao invés de vir. Tudo recomeça no dia 18 de março de 2020. O soldado Emerson Domiciniano está parado, em prontidão, esperando as ordens de seu comandante, sargento Régis Donato. Sua vista escorrega para a mesa do escritório e com aptidão, lê parte do parágrafo sob o carimbo “Arquivado”.

Dizia: Marcelo V. Lourenço, (22-11-1987). Moreno; Olhos negros; Tatuagem – Elefante (Ganesh) hindu. Motivação: resistência indevida. Parentesco: nível de vingança 6 (irmão tem ligações com tropas…

A leitura é interrompida pelos passos calculados do sargento. Emerson Dominiciano, vamos soldado. Me leve para a casa de batalha, no centro. Creio que algumas pessoas estão esperando por resultados. Na viatura, o superior liga o rádio na frequência da Estação Braszil.

[LOCUTOR 1 OFF] AGORA, DESDE SÃO PAULO, A ORDEM DO DIA/LEMBRANDO QUE A PONTUAÇÃO DAS LEIS NA LISTA MAGNA DEVE SER ENTENDIDA COMO A DAS ÚLTIMAS DEZ SEMANAS//

A CADA LEI DITADA, ESTARÁ ESTABELECIDA A QUANTIDADE DE DIAS QUE AINDA RESTAM PARA QUE ELA SEJA APROVADA OU REJEITADA PELA DIRETORIA EXECUTIVA DO ESTADO UNIDOS DO BRASZIL//

//VINHETA – HINO NACIONAL BRASZILEIRO (2017)

[LOCUTOR 2 OFF] DUAS NOVIDADES ENTRAM NA LISTA DESTA SEMANA: NÃO É MAIS PERMITIDA A ASSOCIAÇÃO DE PAIS E RESPONSÁVEIS EM ESCOLAS, CURSOS LIVROS, PRÁTICAS ESPORTIVAS E OUTRAS ATIVIDADES AFINS/ A OUTRA É A NECESSIDADE DE CRIANÇAS QUE ENTRAM NA ESCOLA, MESMO AOS 6 MESES, TENHAM QUE PRESTAR EXAME DE Q.I. PARA SEREM ACEITAS NOS COLÉGIOS, MESMO NOS PARTICULARES/ A AUTODIRIGÊNCIA EDUCACIONAL AVISA QUE IRÁ FISCALIZAR E MULTAR PAIS QUE INSISTIREM EM DESCUMPRIR AS NOVAS SENTENÇAS//

É IMPORTANTE FRIZAR AO CIDADÃO DE BEM QUE AO LONGO DO DIA ELE PODE SINTONIZAR A RÁDIO SZ 1050 am E OUVIR NOVAMENTE A ORDEM DO DIA PARA ESTA SEMANA//

ANTES DE PROSSEGUIR, A CASA DA MOEDA RESSALTA A IMPORTÂNCIA DO BRASILEIRO DE BEM SABER TODAS AS ORDENS DA SEMANA, SE POSSÍVEL, ATÉ A QUANTIDADE DE SEMANAS NA LISTA/ TODOS SABEM MUITO BEM QUE FISCAIS DA SOCIEDADE ESTARÃO DISFARÇADOS E ATENTOS PARA O DESCUMPRIMENTO DE QUALQUER REGRA ESTABELECIDA EM COLEGIADO/ AOS QUE FOREM ARGUIDOS PELA SEGUNDA VEZ SEM SUCESSO, TERÃO QUE ESCOLHER UMA DAS TRÊS PENAS INICIAIS, QUE SERÃO DITAS PELA LISTA MAGNA/ 

“Sabe, disse o sargento, queria muito que o meu filho se tornasse um jornalista. Imagino ouvindo sua voz todos os dias, transmitindo as ordens e sendo o meio entre a mensagem da diretoria e a sociedade de bem. Fiquei muito feliz dele poder ter nascido longe do comunismo e da supressão da liberdade. Imagina, deixá-lo exposto à pornografia e às ideias coletivistas na internet – cospe pelo vidro do carro. Ainda bem que o acesso se tornou restrito à elite”.

– Euu, quase gaguejando, sinto um pouco de falt…

– O que! O rosto do sargento se tornou muito vermelho e suas feições mostravam caninos ao soldado. Como disse?! Ah… filho da puta! Você não cansou de saber das histórias contadas todos os dias no quartel? Caralho, soldado. Você é mesmo um bosta, filho da periferia, um cuzão que não tem nada para falar ou fazer. Vira essa cara para o lado, filho da puta!

Enquanto guiava o carro do exército pelas ruas de São Paulo, Emerson Dominiciano era espancado por seu superior com um porrete alemão. Sua tranquilidade foi sendo deslocada para os pés. Apesar de sentir a dor das feridas e de deixar escapar o carro, ele sabia que resistir seria um erro e serio o nome dele na ficha em cima da mesa, na manhã seguinte. Antes de chegar ao fim do caminho, o sargento já havia lhe falado toda a baboseira decorada e infantil de um homem perverso. Em uma das mãos segurava o bastão, na outra, uma pistola. Olhou com muita violência e rispidez para a rua. Ela não estava deserta. Havia alguns poucos pedestres e a maioria do que estava nas calçadas era de mendigos amontoados.

– Passa devagar, soldado! Passa devagar! Isso… agora, cada uma das três balas vai contar para a sua alma. Foi você quem pediu essas mortes e estou curando você de sua própria destruição. Pow… um já foi. Pow… Pow… Liga a sirene, porra. Quero que todos saibam que foi você quem os matou. Para o carro. Pega essa arma, sai do carro. Agora, pega o megafone e diz o seguinte:

Meu nome, MEU NOME, é Emerson Dominiciano, É EMERSON DOMICINIANO. Eu mandei esses trastes para o inferno porque são pobres e mereciam estar junto ao capeta e não em nossa sociedade. Atônito, o soldado disse, sem que soasse com qualquer naturalidade. Antes que pudesse abaixar a cabeça, o cacetete do chefe lhe batera nas bolas. Filho da puta! Fala direito essa porrra! A dor foi muito forte e o megafone transmitiu um pouco do que ele sentira. Segurando a respiração, enfim, gritou: EU PEÇO PERDÃO AO MEU PAÍS POR TER SIDO INGÊNUO E ILUDIDO COM UM FALSO IDEAL ÉTICO. Ao voltar para o interior do carro, se surpreendeu com a falta de entendimento do sargento. Antes que esse pudesse pensar em alguma coisa, Emerson não mais Dominiciano meteu-lhe uma bala entre as vistas, com a própria arma do sargento.

[LOCUTOR 2 OFF] PELA SEGUNDA SEMANA SEGUINTE…

Por ora, é só.

J. Pas

continue-correndo6

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