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Arte, Estesia, Jornalismo, Política

Mundano, a seca e o jornalismo

Jornalismo, ativismo e arte. Essa é a receita que algumas pessoas têm encontrado para superar a fragilidade da cobertura da mídia no Brasil e a própria insegurança em relação ao que a falta de água pode provocar na sociedade. Sites, redes sociais e até a grande mídia internacional têm sido o escape para que parte da realidade contemporânea possa ser confrontada com o discurso politizado da mídia.

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“Bem vindo ao deserto da Cantareira”, arte e texto Thiago Mundano || Foto: Sebastiao Moreira/EPA

A quase indiferença velada por um parâmetro político, faz com que a informação sobre a questão hídrica chegue à sociedade em três vias, mas não naquela com alcance de oficialidade: a discussão nos chega pelas redes sociais, por jornalistas que enviam notícias sobre o Brasil aos meios de comunicação no exterior e por fim, pela produção de significados realizada nas ruas e agora também, nas estruturas dos reservatórios de água.

Em 2014, o artista Thiago Mundano pintou a carcaça de um carro abandonado descoberto com a seca do rio Atibainha. Mundano deixou para os futuros visitantes, uma lembrança do descaso social no mesmo lugar onde fica(va) as reservas hídricas mais consistentes da SABESP (Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo), na Serra da Cantareira. Ele escreveu: “bem vindo ao deserto da Cantareira”.

A imagem circulou pelas redes sociais de São Paulo, Brasil e do Mundo. Virou meio depois para investigações que levaram à polícia concluir que o automóvel abandonado dentro do rio tinha sido roubado em São Paulo há 20 anos.

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Mauro pinta na Cantareira. Foto: Frederick Bernas

Agora, em 26 de fevereiro, Mundano e o jornalista britânico Frederick Bernas voltaram ao lugar com outros artistas e novos trabalhos foram produzidos. A visita constatou que o carro havia desaparecido do local. O artista tenta acompanhar o trâmite burocrático para ter certeza de que o veículo que se transformou em uma peça de protesto, possa ser devolvido para seu verdadeiro dono. Ainda assim, Mundano fez questão de retratar o duplo absurdo que saiu da lama – a crise hídrica, uma responsabilidade pelo valor neoliberal das medidas adotadas em relação à companhia. Mas também, pelo próprio carro que se evidenciou depois de 20 anos desaparecido por furto. Ele refez a imagem no concreto ainda descoberto da ponte. Pintou o carro e seu próprio graffiti.

Bernas esteve no Brasil durante a Copa do Mundo e também participou como fotógrafo do projeto Warld Cup. Jornalista, Frederick trabalha como freelancer para as maiores marcas da mídia internacional. Há dois anos faz matérias que invariavelmente são publicas em edições do The Guardian, New York Times e outros grandes da mídia eletrônica mundial. O jornalista de 28 anos sempre se interessou pelo país e conta que apesar de escrever sobre o Brasil tenta não ter uma posição sobre a cultura ou as questões mais amplas. Afirma o britânico que não tem condição de opinar, mas sim, retratar os recortes que acha pertinentes e se tornam uma fonte de informação interessante e inteligente para as pessoas que estão fora do país. Apesar de não tecer críticas ou elogios, as escolhas pelas bordas, por assuntos que fogem ao convencional estabelecido em relação ao Brasil e ao modo de vida brasileiro, reforçam uma identidade que extrapola as fronteiras e se estabelece em uma tentativa de reportar aos outros algo que o soft power do sistema de mídia, geralmente, esconde ou mesmo, modifica seu sentido.

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Mundando pinta a estrutura da ponte sobre o rio Atibainha. Foto: Frederick Bernas

Há um interesse que também incentivo a jovens jornalistas como Bernas, a falar do nosso modo de vida. O The Guardian, por exemplo, que publicou nesta segunda, 9, a matéria de Bernas com Mundano e o novo graffiti, abriu uma seção exclusiva para que cidadãos do mundo enviem notícias e informações sobre o Brasil. A seção “GuardianWitness”pede para que colaboradores enviem vídeos, fotos e textos sobre o que se passa na terra em que no próximo ano será palco para os Jogos Olímpicos.

A questão que se projeta no jogo da comunicação contemporâneo é tal como o carro evidenciado pelos novos arranjos permitidos atualmente – a fotografia, a arte crítica, o texto e a distribuição independente desse conteúdo. As redes sociais, jornalistas estrangeiros e artistas conseguem trazer à tona um reconhecimento da sociedade mais real (milhares de reportagens não mostraram tão claramente quanto a imagem do carro e da intervenção de Mundano) do que os meios de comunicação tradicionais que, teoricamente, são os eleitos pela opinião pública a ter a legitimidade sobre o fato e a opinião no país.

Em relação à “falta d´água”, a reação política da mídia de São Paulo e nacional foi tímida e tratou inclusive de apoiar a culpa no desperdício da população – sempre ignorante. Coube a uma imagem, o carro grafitado, dar mais noção à população do que milhares de linhas escritas com um propósito outro que não dar noção da realidade social puderam revelar.

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