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Arte, Estesia, Jornalismo, Urbano

Spock é grafitado em nota de $5 dólares canadenses

“Com o tempo você perceberá que possuir isto, não será tão prazeroso como desejar e nem muito lógico.”

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Em 27 de fevereiro, morreu o ator Leonard Nimoy, mais conhecido pelo papel do sensato e desprendido de emoções, Sr. Spock. Duas semanas depois, várias notas de $5 doláres canadenses têm aparecido com o rosto do vulcano e suas orelhas, sobrancelhas e corte de cabelo característicos. Eles estão desenhados sobre o do personagem original, alguém importante para o governo do Canadá.

Como dizia o próprio Spock, a lógica não é o final, mas o caminho para a sabedoria. Através do reconhecimento das conexões é possível chegar a deduções, hipóteses e antíteses. E esse novo agenciamento – o desenho na nota de um personagem pop – feito anonimamente sobre aquilo que é “legal” – o papel moeda, resgata algo de um sentido original e subversivo do graffiti. “Graffiti” também significa algo desenhado, escrito, pichado, colado em uma superfície que não foi construída com essa finalidade. Ou seja, a ação de alguém ou de um grupo expressa em um lugar que não foi pensado como meio de comunicação antes de ter sido intervido. Assim, não só os muros são grafitados, as notas, as carteiras da escola, a porta interna do banheiro e tudo o mais que não tinha função de mídia e se tornou pelo simples capricho daquele que desejou se expressar. Uma ideia que dizem ter surgido na França há mais de 10 mil anos e que deu num boi desenhado.

O humano é essa coisa que tenta tirar de dentro pra botar no fora um sentido de si e assim, tanto ele (em análise), quanto os outros usarão essa transgressão como forma de se reconhecer internamente. Mas os que tentam comandar o inevitável se utilizam do pensamento moralista e conservador baseado em uma sociedade do século XX que foi negada irremediavelmente nesse mesmo século e se não há engano, na metade dele. As paredes empoeiradas da cidade parecem ser menos danosas para os que pregam a diferença como norma do que a palavra ou desenho escritos em um muro. Será?

Graffitisd

Como no Brasil, deve haver uma lei em que é proibido alterar a imagem das notas no Canadá. Isso conecta o país ao mercado global e ao sistema financeiro mundial e assim, o Canadá precisa garantir a lógica da aparente lisura aos investidores e porque não, às agências que a esses lhes oferecem notícias sobre seus mercados.

As possibilidades de troca econômica e de informação se intensificaram e hoje, dependem praticamente do sujeito saber se ele é/ tem ou não tem um canal de comunicação. Muitos nem sabem que os têm – ter um perfil no facebook já é ter um meio para se expressar publicamente. Outros tantos ainda trabalham para aumentar a valorização de certas doutrinas que diminuem o papel do coletivo e criam uma espécie de seleção nada natural para tentar escolher os que podem ou não sobreviver no cotidiano.

Assim, deve ter em algum lugar escrito que há sansões para quem pratica essa ação – para o canadense, alguma punição como multa, por exemplo, mas globalmente seria ir de encontro às normas do mercado mundial, controladas por pessoas que pregam para investidores e para a massa, ao mesmo tempo. Entretanto, agora, na urgência da sociedade entrecortada pelas redes de saber e dados, o mercado não é mais comandado pelo material dinheiro, nem pelo acaso. Não há comando. Há pessoas e elas fazem o que pensam e o que podem para se expressar, mesmo que seja estético ou ainda político. Até sem saber sobre o que fazem, demonstram que o desprezo ou a ignorância perante às regras tão rígidas e relevantes de seus governantes é algo sintomático.

O livro “Império” de Negri e Hartd foi lançado no início do milênio. Ao mesmo tempo, tanto os pós-estruturalistas franceses – Foucault, Deleuze, Gatarri, Derridá, Lacan, quanto a semiótica peirceana voltaram a ser tema de debate e estudo nas faculdades de jornalismo, letras, pedagogia, geografia, sociologia, filosofia e outras da área de humanas, até o direito – como bem vimos no filme “Tropa de Elite”, no Brasil. Todos esses de alguma forma nos alertaram para o perigo da contradição do capitalismo pós-fordista: a possibilidade do consumo como produção de si; a mercantilização da vida e do saber. É aquele “regulado” pela inconstância do mercado. Ainda assim, apesar da doutrina pregar a necessidade de se arriscar, o discurso manteve o tom pré-moderno e colonialista: não há diferenças desde que não esteja perto de mim. Esse pensamento não entende o humano como algo maleável, mas categorizado, escolhido, cheio de dádivas. Quer conservar certo status baseando-se ou em fantasias religiosas ou em determinantes econômicas – feudalismo burguês contemporâneo.

Spock

Sintoma de insatisfação, do haver ou falha pedagógica?

Na mente da lógica ocidental (e, por que não, branca, masculina, nortenha, capitalista e protestante) que infelizmente nos ocupa há 5 séculos, ser lógico é ter certeza que existem dois lados que se opõem de tal forma que a existência de um só é possível com a ausência do outro. Mas isso, claro, é um teatro. Torcer para que o time rival “se foda” quase é pedir para que o esporte, o futebol, seja uma bosta, pois o mais importante é que seu desejo/ódio se efetive. Num e noutro há o contraditório. Entretanto, na hipocrisia da neoliberdade, mesmo aquilo que é contrário aos valores e costumes pregados, mas que na atividade há um fim econômico (mesmo em capital imaterial e emotivo) e de lógica lucrativa (abastada), fazer isso circular se torna uma oportunidade de alguém que não se enxerga como presente na sociedade, seja “alguém”, se sinta como ser dono de “coisas” e na cabeça simples dessa lógica, “poder” – poder, teoricamente, fazer o que quiser (por ter o capital e os contatos) – só que dentro de um limite estabelecido pelo que é convencional. Uma falsa liberdade ao inivíduo que participa do sistema de consumo.

Grafitar uma nota do sistema racional do mercado seria o que? 1 – Insatisfação com as exigências contraditórias da mensagem nos meios e a forma vivida na prática? 2 – Arte, uma prática do espírito necessitado de se expressar e de se comunicar com os demais? 3 – O convencimento de que a cultura pop superou a lógica do mercado, mesmo sendo esse seu maior provedor? 4 – Ou, simplesmente, fruto de uma boa técnica e a necessidade de se criar lógicas em lugares que não estavam previamente estabelecidos para tal, gerando assim, interesse e compartilhamente por aqueles que se chocarem com o fato?

Spock e Original

Terão aqueles que acessarão à informação pelo efêmero da imagem do personagem popo e alguns que poderão entender o que estava acima como algo que reflete sobre a epistemologia do que é escrever em uma nota de moeda oficial do governo. Diferentemente do pensamento lógico ocidental, pensar sobre isso é filosofar e não perder tempo na vida, como querem que acreditemos. Assim, mesmo que o gancho seja o inusitado midiático legal para se contar para os outros ou para se satisfazer com um conhecimento fútil e finito,  ver a nota com o Spock abrindo os 5 dedos e valendo $5 é pensar no quanto fazer esse desenho possa ser subversivo. O que vale ser assim hoje em dia, já que sair das normas pode ameaçar a segurança do status no mercado em que participa?

Pois na comunidade, tudo vaza e o tempo é o senhor verdadeiro da justiça.

Aguardemos a providência de Saturno e de Vulcano!

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