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Jornalismo, Mídia, Política

Chumbo Quente – a participação da mídia na ditadura brasileira

aditadura1No nosso 11 de setembro, não foram duas torres que caíram, mas sim, a moralidade do colonizador e sua submissão. Neste dia, próximo à primavera de 1973 no hemisfério sul, forças patrocinadas pelos Estados Unidos ajudaram a derrubar o governo do primeiro marxista a assumir a presidência por aqui. Conta-se que Salvador Allende se matou após a invasão do Palácio La Moneda, em Santiago do Chile. Naquela época, o Brasil vivia sob a ditadura militar em sua fase mais repressora. Milhares eram presos e torturados. Centenas de desaparecidos.

A censura à mídia era uma norma, principalmente, depois do famigerado AI-5 que colocava censores nas redações e evocava a autocensura aos jornais. O massacre já havia ocorrido durante o dia e era fato que a manchete do dia seguinte do Jornal do Brasil seria reportar ao público brasileiro a atrocidade cometida em Santiago. Entretanto, eis que representantes militares ligam para a redação do JB e exigem uma medida para a edição: a morte de Allende não pode ser manchete. Naquele tempo, o jornalista responsável, o editor-chefe, era Alberto Dines. Ao chegar ao JB às pressas, 11h da noite, após ser avisado da ordem do regime, Dines, então, tem uma epifania e decide em favor da censura – sim, o Jornal do Brasil não estampará como manchete o golpe chileno! E, não só isso, não terá qualquer manchete na edição do dia 12! Assim, buscando a maior tipologia possível para engrandecer as letras, Dines coloca o texto da cobertura que estava em uma das páginas internas, na capa. Um severo e artístico golpe em favor da liberdade de expressão e contra a repressão política às redações. Dois meses depois, Dines seria demitido por “rebeldia”.

Clique na imagem para ler:
jb-12-09-1973

Esse e outros episódios marcantes da participação da mídia na ditadura são relembrados na série de três episódios produzidos pelo Observatório da Imprensa, “Chumbo Quente”. Documento pedagógico e essencial para a sociedade, jornalistas, historiadores e todos aqueles que se interessam em conhecer o tenebroso momento vivido pelo país entre 1964 e 1985.

A mídia na Ditadura: de vilã à vítima

2014 foi marcado pelos 50 anos do golpe militar no Brasil. Infelizmente, reflexões e ações por parte dos meios de comunicação mais expressivos não estimularam uma revisão ou mesmo, análise mais profunda do papel dos mesmos durante os 21 anos de intolerância política. Uma verdadeira cachoeira no oásis midiático, o Observatório da Imprensa, comandado por Dines, não só debateu o tema ao longo do ano, mas também, produziu um pedagógico documento dividido em três partes que não apenas esclarece sobre a participação dos jornais antes do golpe, depois do mesmo e nos anos seguintes de endurecimento, como suscita a necessidade de se ir mais a fundo em uma pesquisa que revele à sociedade a participação dos meios de comunicação na legitimação do regime autoritário, nas perseguições e mortes. A série deveria estar em sala de aula, antes mesmo dos jovens irem para a faculdade. É importante a formação de eleitores conscientes da participação e manipulação dos meios nos desígnios de nossa nação. Foram entrevistados 35 pessoas que viveram ou estudam aquele momento, entre jornalistas, historiadores, ex-guerrilheiros e familiares de vítimas da ditadura. O Observatório da Imprensa relembrou o período sombrio mais marcante da história brasileira sob a ótica da mídia, ao mesmo tempo protagonista do golpe, convertida em vítima do regime de exceção.

Chumbo Quente nos mostra aquilo que parece ter sido esquecido: um jornalismo que apura e se coloca como mediador social, não como manipulador, aliado ou desafeto dos que governam conforme a onda e as ordens. Além disso, reúne em um só conteúdo a possibilidade de vermos manchetes, artigos e charges que acompanharam a derrocada da democracia no Brasil. É interessante, por exemplo, entender que muitos jornalistas se surpreenderam com os contornos do golpe. Havia aqueles que não estavam satisfeitos com as ações de João Goulart na presidência e apesar disso, se tornaram reféns daquilo que tanto desejaram: sua queda. Segundo Dines, a Ditadura no Brasil inaugurou a mídia “parcial”, amistosa aos poderosos e isso, sim, nos trouxe rastros negativos até os dias atuais.

O especial foi exibido pelo OI em três capítulos no mês de janeiro. Na primeira parte, Chubo Quente analisa a participação da mídia e de jornalistas na transição entre o governo de Jânio Quadros e os primeiros dias de golpe. Em seguida, no segundo capítulo “Chumbo ainda mais quente”, mostra os contornos tanto da história brasileira, quanto do conteúdo jornalístico já em pré-censura, entre 1964 e 1968, ano fatídico para as redações.

O capítulo final trata das mortes de Carlos Marighella, Frei Tito, Carlos Lamarca, Vladimir Herzog, Stuart e Zuzu Angel e do embaixador José Jobim. O episódio analisa alguns casos emblemáticos como o atentado do Riocentro e a guerrilha do Araguaia. O programa também relembra uma das mais eficazes táticas da esquerda nos anos de chumbo: o seqüestro de embaixadores. A tática não só trocou diplomatas por presos políticos, mas possibilitou a publicação de manifestos por parte da resistência nos grandes jornais e isso, garantia a visibilidade estrangulada com a censura.

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