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O homem inconformado

tumblr_nhtg94c8F51u68m2jo1_1280Ele queria saber por que se deve ficar inconformado, mesmo não havendo raiva. Foi assim que começou a pensar. Não era pelo cheiro, pelo som, mas pelo olhar mesmo. Era olhando que ele se irritava, que havia. Não era esse seu desejo, mas era assim que o sangue circulava. Olhava pra dentro, olhava pra fora. Raramente conseguia enxergar alguma coisa. Isso o deixava profundamente raivoso. “Não acredito, estou inconformado! Não acredito, estou putaço! Não acho nada. Não acho”, repetia solitariamente em seu íntimo. Às vezes escapava pela boca, mas morria baixinho como um sussurro para o tempo: filho da pul..tahhh

Lá dentro, via os pensamentos passarem como um passageiro em um ônibus. Não era de praxe especular muito. Curtia o vazio e a mutação das ideias, a explosão da coisa, daquilo que “era”. De tempos, lhe corria de cima a baixo algo indizível. Não formava imagem nem ao menos dava poesia. Em outras ocasiões, coisas imorais evocavam cantos e lacunas, mas mesmo assim, deixava passar como se não fosse consigo. Às vezes, ideias geniais surgiam como uma avalanche de excitação – de certo que algumas conseguia agarrar e levar adiante para a mesa do escritório, mas a maioria se perdia atravessando a avenida ou mesmo no elevador.

Ainda assim, no meio do que via e do que não via, se irritava profundamente por não entender absolutamente nada. Procurava com as vistas, com o pensamento e nada. Era naturalmente inconformado. E em nada acreditava – e isso, não tinha a ver com fé, Deus, religião, astrologia, I-Ching – essas coisas, ele achava razoável grande parte. Seu problema era com a vida mesmo. Sentia-se desprovido de palavras para dizer sobre a causa de todo o incômodo. Entretanto, cotidianamente seu corpo e espírito sofriam os efeitos do momento original: a dor e a incompreensão, a astúcia e a ignorância, a meritocracia e a camaradagem. Em nada disso acreditava. Mas ali, no centro, em meio às bancas de jornais, aos profetas da última hora, aos que ralam pela miséria e aos que submetem almas, via que todos acreditavam. Criam mesmo e viviam na crença do que lhes era dito pelo passado. Um pregresso recente, sem crença abastada, mas iluminado por uma ilusão de riqueza.

Um turbilhão de não significados lhe surgiam nas tragadas que dava às 11h25 e 16h45, encostado no alambrado da obra da prefeitura. Permanecia em silêncio vagando em olhar a paisagem, não enxergando nada e, o vazio do pensamento ficava imerso em pequenas diligências. Nada prendia o olhar, nada pretendia o pensamento.

Tinha, claro, uma memória e nela se encaixava direitinho o verbete “sonho” – um de seus algozes, uma de suas benções. Sim, mesmo inconformado, ele também gostava muito da ação “sonhar”. Quase levava para a vigília. E em determinados momentos, agarrava-se ao colchão para dormir mais. Na sua memória, sonhos costumavam ter uma sensação no mínimo prazerosa, independente do enredo e das passagens. Entretanto, lembrava o tempo todo em que não sonhava que no mínimo dois terços da vida eram acordados. E para aquela parte em que o coração pode parar, ele não tinha muitos sonhos. Era desprovido de imaginação tamanha a inconformidade com o estado das coisas. Desde o início, um iconoclasta.

No caminho de volta para casa, via seus pensamentos recordando as penúrias e as propostas que fez ao mundo. Tinha uma quase sensação de morte – ficava em um limbo, paralisado, sem saber como se destrancar daqueles salões do passado. Quando saltava dali, lembrando do aqui-agora, via-se em um sorriso e dono de um estado de presença na vida. Não tinha futuro que não fosse agora, pensava, pensou, pensa

Ao Potiguara

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