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Frida Kahlo, por quê?

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Se existem dois personagens de nossa civilização que fazem o sonho e a identidade da América Latina, sem dúvida, são Che Guevara e Frida Kahlo. Por mais que habitem um imaginário que também tange ao mercado de consumo, ambos configuram tipo ideais para homens e mulheres jovens, nas sociedades latinas atuais. A força e a luta pelas origens e pelos mais desprovidos, o ardor pela arte e a expressão de suas ideias guiaram parte de suas vidas e estiveram em seus feitos e obras. Foram sujeitos livres em tempos em que ser revolucionário e mulher eram perigosos na América Latina. Frida nasceu em 1907 e morreu cinco anos antes de Che chegar à Sierra Maestra (1959). Era 20 anos mais velha do que ele, porém demoraria quase cinquenta anos para voltar à pauta da vida de nosso continente. Em 2002, Salma Hayek interpretou Frida em Hollywood, (re)despertando interesse mundial pela pintora que também tivera seu momento internacional quase no meio do século anterior. Especificamente entre nós, seus conterrâneos, ela também passou a simbolizar a luta da mulher, de certo conforto no belo daquilo que é regional, próprio, que sai do dentro e emerge no fora e no suave e forte daquilo que há em nós, habitantes de terras estupradas e que se pretendem independentes – das forças e formas externas. Um refugio em nós mesmos, em relação aos algozes de cinco séculos.

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Frida era filha de um imigrante de origem alemã e de uma católica com parentes índios e espanhóis. Nasceu três anos antes do início da Revolução Mexicana de 1910 e sua juventude foi vivida entre dois ambientes bem distintos: o distrito de Coyacán e as ruas centrais da Cidade do México, onde o pai mantinha um estúdio fotográfico. Era apaixonada pela cultura regional dos mexicanos. Desde cedo, aprendeu cantos e lendas de seus antepassados de Coyacán e nunca os deixou de recitar ou mesmo tocar ao violão. A vida inteira se interessou em descobrir traços do interior mexicano e explorá-los em sua vestimenta, dizeres e obras. Diego Rivera, principal pintor das Américas na primeira metade do Século XX e marido de Kahlo, era um apaixonado pela cultura rural e antiga de seu povo. Sempre que iam a qualquer povoado, levavam para casa objetos, utensílios, panos, ícones.

Desde cedo diferenciou-se de seus contemporâneos. Seus hábitos não eram comuns para um garota mexicana de classe média e católica. Entretanto, Frida soube levar uma identidade tão próxima ao próprio espírito que nunca conseguiu deixar de ser a si mesma. Era quase impossível se lembrar em ser comportada ou deixar de falar desse ou daquele modo, se vestir assim ou assado. Sua autenticidade, obviamente, vinha também temperada por um comportamento bélico e de alguma maneira, fálico – era a forma de uma mulher conseguir furar as barreiras de uma sociedade arcaica e em vias de se urbanizar. Entretanto, sempre apaixonada, cômica e de certa forma, poética, nunca deixou de englobar a manifestação artística em seus atos, mesmo os mínimos e cotidianos. Não reconhecia certas hierarquias sociais e se comportava como se não houvessem distâncias ou determinados padrões de comportamento para jovens, mulheres, mexicanas. Foi assim da infância à faculdade e mesmo depois, na gringa. Nas grandes salas de museu ou em recepções nas coberturas mais apropriadas de Manhattan, sempre se destacou pelo porte e pelo exotismo – para eles, claro. No final dos anos 30 e no início dos 40, ela esteve na pauta da pintura. Antes era apenas a mulher de Diego Rivera, a Sra. Rivera. Entretanto, a partir de encontros em Nova York e cidade do Méxicos, artistas europeus representantes do surrealismo passaram a integrá-la como uma representante da vitalidade do movimento na América. André Breton  se tornou um grande admirador de Kahlo e a levou para expor em Paris depois de visitá-la no México, no final dos anos 30.

Antes da II Guerra se tornar um conflito mundial, ela foi aplaudida e conseguiu ser reconhecida além de seu marido. Com este, teve vários problemas e acabaram por se separar várias vezes, inclusive a mais tensa, sendo nesse período de maior abertura ao mundo. O casamento e a paixão por Diego foram uma vida em que Frida, ao se deparar com a dor da traição e o gênio ampliado de Rivera, acabou por também se libertar de certas amarras ao homem, ao marido ocidental – talvez, ao final, descobriu ao mesmo tempo mais de si mesma e do real significado do que é amar e ser amada. Partiu várias vezes de seu casamento, com certa autonomia e pode também trilhar um caminho próprio nas artes e no amor. Foi amante do fotógrafo residente em NY, Nykolas Muray e também, pivô de um sério problema para Leon Trotsky e sua esposa, Natália, quando estiveram asilados na casa dos Rivera, na mesma Coyacán natal de Frida. Apesar disso, ainda no início dos anos 40, o casal Rivera estaria junto novamente e ambos continuariam assim até a maioria do tempo seguinte. O encontro com o revolucionário russo marcou uma etapa na vida e na carreira de Frida. Nos meses em que o “velho” esteve por perto e antes dos problemas políticos e passionais entre Trotsky e Diego, Kahlo conseguiu decididamente passar de uma etapa a outra em sua produção. Houve uma intensificação, uma maior dimensão e força em seus autorretratos a partir dali. Ela, finamente, se pariu, como em seus quadros mais sufocantes.

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Frida ladeada dos Trotsky – Natália e Leon, México, 1937-8

Desde jovem, com ou sem Rivera, sempre se mobilizou por políticas nacionais e regionais. Foi membro do Partido Comunista Mexicano em duas ocasiões e sempre foi reconhecida pelo debate e retórica. Esteve a frente de comitês de minorias e organizou eventos para a ampliação da troca e aprendizado sobre o folclore e as artes mexicana. Frida teve sua primeira exposição individual somente em 1953, um anos antes de sua morte e já na cama. A abertura da exposição teve que ser adaptada para que Frida pudesse acompanhá-la em sua cama, tal como estava incapacitada de se movimentar.

“Pinto a mim mesma porque sou sozinha e porque sou o assunto que conheço melhor”

Em seus diários, ilustra a dor e a ameaça da morte quase como alívios à vida. Passou por dezenas de cirurgias desde a adolescência e nunca conseguiu estar exatamente “a vontade”, em sua corpo. Agora, na atualidade dos corpos, Frida representa uma jovem ou mesmo, um  jovem, que tenta sair da repressão inicial de colonizado, como ela sempre fez questão de se colocar. Enfrentou a dor de abortos espontâneos e sua condição em não poder ser mãe. Foi mãe de si mesma, cuidando de se reconhecer e perceber seu interior em cada olhar de seus autorretratos. Assim, seu simbolismo enche a imaginação sobre a força e a necessidade do feminino e a coragem para uma atuação além dos padrões e que seja também, um ato de criatividade.

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Fragmento do diário de Frida: “pés para que os quero / se tenho asas para voar”

Nas últimas páginas de seu diário, escreveu: “Espero que a partida seja feliz e espero nunca mais voltar”. Entretanto, Frida Kahlo não só voltou com o peso que lhe foi a existência. Hoje, se por um lado abarca um mercado kistch da arte turística e mesmo urbana, diluiu sua força, criatividade e espírito ativo como modelos e motivos para a vida cotidiana do sujeito latino-americano não se entregar ao óbvio, ao cinza, à passividade. Imagino que sua vida, sua imagem, sua voz tenha apoiada e ajudado a muitas e muitos a se libertarem. A apreciar um mundo em que a culpa e a solidão podem se tornar uma ilusão poética, uma tela, um texto. Resistir às impossibilidades e explorar as possibilidades do corpo, da sociedade, das artes, da vida, esse foi seu lema e essa é a vontade para muitos que querem se libertar das várias colonizações que os habitam. Até mesmo, da própria imagem de Kahlo, que de alguma forma, já chega a certa estafa com a utilização indiscriminada de si e de seu tema em itens de consumo, como o ocorrido com seu colega argentino, também revolucionário que se tornou grife em nossa alma. O excesso e o desvio para o prazer estético não irão conseguir apagar de nossa história o valor de sua contribuição. Que sejamos gratos à Santa Frida das Américas!

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