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A ebulição pós-vintage do Aguardela

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*Edição – Leonardo Paiva

Houve um tempo em que ser qualquer coisa tinha a ver com duas questões: talento nato ou necessidade financeira. A pessoa tinha tal ou tal ofício por conta de sua facilidade em fazer aquilo ou porque uma necessidade imperiosa de se ganhar a vida garantia que o empregador utilizasse o sujeito para que as coisas acontecessem em determinado serviço ou lugar, num estipulado tempo. Não que isso ainda não aconteça, mas como regra, a Era Industrial já era! Agora, estamos exatamente no pós disso, nos pós. Estamos adiante à determinação, à dualidade, à fixação de destinos, de ideias, gostos, ideais e até mesmo, do contrário disso.

No mundo “pós”, antropólogos, cientistas políticos, videomakers, produtores de cinema e fotógrafos não precisam, necessariamente, ter uma uma etiqueta em seus perfis, apontando o que os define, ou do que são capazes de fazer. São, ao mesmo tempo, unidade e pluralidade. Definidos e indefinidos, algo como a indeterminação dominante e augusta da física quântica. Podem, inclusive, tornarem-se músicos e formar uma banda, sem abandonar o “outro lado da vida”, para que as trilhas sejam gravadas e o som submetido ao ouvido do próximo. Em meio a viagens à Amazônia, ao registro de imagens, ou mesmo em território africano, em reunião dos BRICS, o Aguardela se constrói. Seus integrantes não possuem uma vida secreta porque, justamente, no mundo do pós, ser múltiplo ou híbrido não é problema, mas sim provável solução para romper com a angústia do aprisionamento.

Sem saber um ao menos, porquê de querer /
Sem perder um momento de simples haver

(O Fim)

O primeiro álbum do grupo carrega em sua força melódica o espírito desse tempo. É possível reconhecer a fusão de ritmos regionais e internacionais que faz um suco antropofágico muito bem pulsionado pelo excelente músico e baixista da banda, Sérgio “Zuzu” Veloso. Aguardela vai do glam rock, passando pelo carimbó; de Mutantes à musica balcânica, mas sem perder a identidade: a experimentação refinada de referências sonoras, uma pitada de melancolia do que é a vida no mundo atual, principalmente nos vocais, que cospem letras sofisticadas de um “eu” aprisionado às possibilidades do mundo e todo o mal que ele pode causar. Indagado sobre a definição do estilo musical do Aguardela, Pedro Salim, letrista (todas as letras foram escritas por Salim entre 2007 e 2013), apresenta uma amálgama de possibilidades: música brasileira alternativa pós-vintage. Já no site da banda – www.aguardela.com.br a descrição afirma que estão “transitando de cantigas medievais ao swing latino, passando por ritmos folclóricos europeus até desembocar no post-rock grave”. Ou seja, é isso mesmo: a sensação ao se escutar o álbum é a de se deparar com uma colcha de retalhos de sonoridades costuradas de forma harmoniosa, mesmo em meio à aparente heterogeneidade das faixas.

O álbum completo pode ser baixado em http://aguardela.com.br/

Quando já se foram não é mais fácil de esquecer /
Mas tudo que passa deixa um espaço que se refaz

(Caminhos)

pedro salim.jpg

O Aguardela lança seu álbum de estreia nesta quarta, 13 de agosto, no Espaço Sérgio Porto, às 20h ( Rua Humaitá, 163 | Rio de Janeiro). Além da diversidade em torno da música, outro ponto de convergência que se soma ao arcabouço de referências é o fato de todos (exceto Fábio Nascimento) terem origem em Juiz de Fora – apesar de viverem no Rio de Janeiro há mais de 3 anos. A cidade situada na fronteira entre Rio e Minas, e não tão longe de São Paulo, é uma estratégica base de encontro para a diversidade de referências entre o local e o global. Um entre lugar, local de passagem, aonde o conteúdo e a informação pairam sobre a presença da Universidade Federal (UFJF), em uma cena cultural sempre em ebulição, que se expande e se encolhe, ao sabor das migrações, conflitando o velho e novo, o conservador e o experimental, o tacanho e o ilimitado.

O álbum de estreia foi produzido por Aguardela em 2013, em Juiz de Fora, Galdinópolis e Rio de Janeiro.
Gravado e mixado por Pedro Garcia no Estúdio Cantos do Trilho, Rio de Janeiro (com excessão de Oá, gravada e mixada em homestudio). Masterizado por Chris Hanzsek, em Seattle.

Aguardela:

Daniela Santos
vocais

Fábio Nascimento
bateria, teclados

Pedro Salim
vocais, antílope, ukulelê (guitarra em Oá)

Thiago Oliveira
guitarras, violões, sintetizador, (ukulelê e bateria eletrônica em Pólen)

Zuzu
baixo (violão em Pólen, bateria eletrônica, programação e guitarras em Oá)

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