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Ativismo, Cinema, Cultura, Política

No! – um filme sobre as faces de uma mesma moeda

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No filme “Waking Life” (2001), um ativista aos berros grita em um alto-falante que não há diferença entre se escolher um candidato do partido republicano ou democrático (EUA) – “são lados da mesma moeda”. A sucessão ao poder na América parece correr essa regra e mesmo, as supostas reviravoltas políticas também contêm algo de sinistro por trás de boas intenções. E não se trata apenas da parte norte de nosso imenso continente. Isso também, por via de regra, acontece no sul, mesmo que de uma maneira velada ou, pelo menos, adocicada por uma suposta vida mais confortável para a classe média ou mesmo, na derrubada de governos autoritários como no Brasil e no Cone Sul (Argentina, Uruguai e Chile).
Claro, não queremos nossos direitos civis interrompidos por conta de interesses econômicos e divergências políticas. Não queremos ter a imprensa privada de seu trabalho. Claro, não queremos que nossos irmãos sejam torturados em cárcere militar. Entretanto, ao analisarmos a relação entre economia e política é possível entender que passamos de uma ditadura militar-física, para um domínio mercadológico-subjetivo.
No início dos anos 1980, o governo do general Pinochet admitiu um plano de transição à democracia que culminaria em um plebiscito em 1988, em que os chilenos escolheriam entre a permanência do carrasco no poder ou a abertura para eleições democráticas. Em “No!”, filme de Pablo Larraín que concorreu ao Oscar, em 2008, o mexicano Gael Garcia Bernal fez o papel de um publicitário que retornava ao país depois de anos na gringa. Ele, então, é convidado pelo comitê à favor do “não”, opção para aqueles que não desejavam a permanência de Pinochet na presidência por mais 8 anos.

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Artisticamente, a fotografia leva um destaque bem interessante, pois se propõe a retratar o filme como se estivesse dentro de uma TV, com os mesmos tons acinzentados dos anos 1980. Além disso, tendo como foco o personagem vivido por Gael, mostra ao mesmo tempo sua angústia por estar indo de contra à política autocrata vigente à época e também, como os dois lados da moeda podem conviver em se tratando das oportunidades profissionais. Ele interpreta René Saavedra, filho de militantes nos anos 1970 que volta ao país com o espírito da liberdade em suas ideias e roteiros para campanhas comerciais. Saavedra trabalha, inclusive, para o diretor da campanha do “Sim” e a amizade entre os dois garante a soltura da ex-mulher do primeiro, em uma varredura feita pela polícia chilena em um dos comícios pelo “Não”. Ao que parece, há um pouco de consciência política, em função de seu passado, mas há também algo além do bem e do mal, como se estivesse ali por conta de seu talento em atrair a atenção do consumidor-eleitor. E esse é o ponto!
A campanha pelo “Não” se vale da efemeridade encontrada no marketing para o convencimento de uma alegria fácil – inclusive, esse é o tema proposto, trazida pelo bem-estar de um mundo aberto à diversão e ao consumo de ideias jovens e, supostamente, libertárias. Em “A doutrina do choque“, a jornalista canadense, Naomi Klein, aponta o Chile como primeira experiência neoliberal do planeta, antes mesmo dos planos implementados por Thatcher e Reagan no final da década de 1970. O Chile privatizou empresas nacionais, tirou o acesso gratuito às universidades e se apoiou unilateralmente nas ideias de Friedman e dos estudiosos da Universidade de Chicago. Assim, a parceria Pinochet-Thatcher, desenvolveu uma sociedade baseada no consumo de bens e na meritocracia; no aumento do desemprego entre as classes mais baixas e no lucro dos mais ricos; no apoio ao sistema financeiro e no mercado livre, em contrapartida às demandas sociais e mesmo, culturais. Dessa forma, a proposta para a abertura não se baseia em uma benfeitoria do poder chileno, mas sim, em uma exigência daqueles que guiaram a economia globalizada do país – os amantes e fieis escudeiros de uma economia em que a democracia é o pano de fundo para a imposição impessoal do mercado. Afinal de contas, o autoritarismo, mesmo com bases neoliberais, não sustentaria o avanço das empresas e dos interesses comerciais do ocidente. Seria preciso dar ao povo a ideia de liberdade para que o consumo e a vida social fossem no mínimo, confortáveis. Para que as escolhas pudessem ser feitas dentro de um esquema pré-montado e sem rebeliões e mudanças bruscas de governo e economia.

Assista ao filme completo:

Sendo assim, as possibilidades de escolha entre o “sim” e “não”, no Chile é uma metáfora perfeita para o que disse o ativista americano em “Waking Life”: são faces de uma mesma moeda em que uma eventual rivalidade binária, se coloca abaixo de um interesse de governança e sociedade baseada na precariedade das escolhas. Além disso, é interessante pensar sobre essas possibilidades para os outros países que também passaram por tempos turbulentos e miseráveis nas mãos de autoridades militares, como o Brasil, a Argentina e o Uruguai. “Fomos” libertos de uma opressão interna e passamos a ser regidos por uma impressão interna de liberdade, mas sempre guiada pelas pressões externas do mercado e da globalização. Apesar dos avanços sociais claros em nossas terras, os que mais lucram ainda são os mesmos bancos, as mesmas famílias, os mesmos setores. A precariedade na educação e na saúde não são apenas culpa de um ou de outro governo, mas do sistema que tenta engolir a obrigação do Estado, submetendo o indivíduo a uma escolha desigual entre o público ruim e o privado duvidoso. E o que preocupa, agora, além disso, é a revelação cotidiana de uma marca opressora que ainda não se esvaiu completamente do poder: a de reprimir e desmobilizar a consciência política, primeiro através da alegria irradiante do consumo e, depois, pela repressão social em prol de interesses privados e políticos, como podemos ver em obras como “A doutrina do Choque” e “Domínio Público“.

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