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Sobre Domínio Público

Batalha da ALERJ - RIO, 17 de junho, de 2103

Em novembro de 2011, estava em Buenos Aires em uma turnê com uma banda brasileira de Minas. Lá, comprei um periódico portenho que não recordo o nome. Um amigo que comandava as projeções em vídeo naquela “gira”, deu uma folheada rápida no jornal e me disse: “João, posso ficar com essa página?” Quis saber sobre o que se tratava e ali começou um papo que só teria seu término provisório no dia 11 de julho deste ano. Na véspera da abertura Copa, com autorização da Prefeitura do Rio e apoio do Cinemão, estreava nos Arcos da Lapa o mais importante (na minha opinião) material de análise social, política e econômica da atualidade carioca: “Domínio Público“.

O documentário de quase 100 minutos teve como foco inicial os efeitos da especulação imobiliária na Cidade Maravilhosa por conta dos grandes eventos de 2014 e 2016. Entretanto, a produção se viu em meio às manifestações de junho de 2013 e as câmeras do Domínio registraram vários outros motins e pensamentos despertados dali em diante. A pesquisa estava no olho do furacão na hora em que ele se formou. E se colocou suavemente como uma espécie de colírio. Aproveitou o momento que já anunciava ao tratar do tema previamente, com lógica investigativa e boas fontes. A versão que se apresenta tem falas de moradores de comunidades, líderes, vítimas das remoções e da violência policial, e também professores das principais universidades fluminenses, o deputado federal e tetracampeão Romário, o jornalista Juca Kfouri e o estudioso David Harvey.

Naquela ocasião em Buenos Aires, Raoni Vidal, um dos diretores do filme, me pediu para ficar com uma matéria de um jornal argentino questionando o paradoxo das UPPs cariocas: apesar das áreas turísticas “protegidas”, violência e encarecimento da vida cotidiana nas localidades literalmente invadidas pela polícia do Rio de Janeiro. Em 2012, com um corte de 17 minutos, a proposta do documentário foi lançada por crowdfunding, no Catarse.me. Estampando a realidade de locais como a Vila Autódromo e o morro da Providência, em três meses, a proposta levantou 90 mil reais para sua realização. Em 5 de dezembro daquele ano, os apoiadores receberam um email do diretor do projeto, Fausto Mota, agradecendo a contribuição material e imaterial para a construção do documentário e ele apontou um possível cronograma – “Nossa previsão é filmar até a Copa das Confederações e tentar finalizar até o final de 2013”.

E, dessa forma, em 6 de março do ano passado, o projeto enviou uma nova mensagem dando conta dos planos de gravação nos próximos meses, em especial a cobertura das ruas na Copa das Confederações, além de ratificar a finalização para o final do ano e o lançamento para o início de 2014. Entretanto, estourou junho no meio desse caminho e com isso, Domínio Público colocou as manifestações em um movimento contínuo. O documentário não começou pelos 20 centavos, mas a rua e a produção se incendiaram pela truculência das forças de segurança do Estado e a transformação da cidade em um lugar em que os direitos econômicos superaram e muito, os civis. E com as ruas em chamas, a pesquisa se viu como algo que mostraria para a sociedade, depois daquilo tudo, o que havia antes – indícios que indicavam que os protestos era um caso de tempo e não, de um momento específico. As manifestações acirraram as opiniões sobre a relação entre a política e o evento em 2014. Assim, elas se tornaram uma ferramenta para que personalidades que não se pronunciariam facilmente sobre remoções comunitárias, dialogassem com o tema.

Assim, aquele que teve o mínimo de contato com o que aconteceu ano passado, seja mediado pela internet ou acertado pelo festim, ao assistir Domínio Público vai trazer para si informações contundentes que poucos livros, programas de TV ou até, publicações transmitiram ou nos levarão sobre o antes, o durante e o depois de junho de 2013.

Ameaçado por conta dos mais de 4 Tera de imagens, o projeto quase não foi concluído a tempo. Muitas entrevistas como as de Harvey surgiram depois que a produção já quase se encerrava. O filme tem um belíssimo e admirável tratamento de som feito pelo terceiro realizador, Henrique Ligeiro. Além de se mostrar atual, é também consistente em sua narrativa por entrevistas, entremeadas por cenas com áudio direto nas manifestações e belas escolhas de narrativas musicais, bem ao estilo carioca, com muita prosa. Do funk a Wilson das Neves e Paulo Cesar Pinheiro, um indício de que a música é uma expressão ainda mais brasileira que o próprio futebol, pois fala da gente muito mais do que quer o cabelo do Neymar.

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