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O futebol como metáfora da luta cotidiana

Maradona comemora o título de 1986, no México.

A partida inicial da Copa de 1990, na Itália, foi entre Argentina e Camarões e a nossa seleção inimiga foi humilhada por uma desconhecida nação africana. Maradona vinha de muitos problemas e glórias jogando no país sede do mundial, que o acolhera para o bem e para o mal. O Napoli, equipe em que atuava ao lado dos brasileiros Alemão e Careca, ambos na seleção canarinho, acabara de vencer o torneio nacional com el Pibe jogando maravilhas e derrotando o Milan, base da seleção holandesa campeã europeia em 1988, com Gullit, Van Basten e Rijkaard e a Inter de Milão, que tinha o trio alemão Brehme, Matthaus e Klismann, que se sagrariam tricampeões mundiais naquela Copa. Nós brasileiros comemoramos muito o gol de Omam e nem imaginávamos que esse resultado seria aquele que selaria nossa participação na Itália. A Argentina ficou em terceiro no grupo – naquela época, a Copa tinha 24 seleções e os quatro melhores terceiros classificavam. Assim, o Brasil, primeiro do seu grupo, pegou a arqui-rival nas oitavas e todos sabemos o que aconteceu.

Abaixo, observe a fala do narrador em relação ao presidente de Camarões:

Desde então, enfrentar a Argentina era uma situação um pouco mais amarga do que sempre fora. Era impossível não pensar no gol de Caniggia e muito menos, não torcer muito contra o seu selecionado, seja no futebol ou mesmo, na dama. Entretanto, com o passar dos anos, a ficha foi caindo e aquele que tomou um pouco mais de consciência futebolística e geopolítica, pôde perceber duas coisas: primeiro, que o futebol praticado pelos hermanos era vistoso e empolgante de se ver; depois, que ser contra uma nação tão próxima da gente culturalmente é também um tipo de alienação. Taxar os argentinos de presunçosos ou mesmo, ególatras, caiu num senso comum, inclusive, porquê nós, brasileiros, por maior que tenhamos o instinto vira-lata na ponta da língua, também somos orgulhosos e cegos quando comentamos sobre as belezas e esquecemos nossas mazelas, principalmente em relação à consciência social e histórica pela qual estamos subjugados.

Perca um tempinho depois de ler esse artigo e assista ao vídeo sobre o pensamento político argentino

O povo argentino não pode e não deve ser colocado em um lugar de desprezo, mas sim, de admiração. E isso não é panfletagem em favor de Perón ou de Che Guevara, mas sim, na maneira como o próprio platino se vê e se coloca como cidadão.

Pós-Junho?

As manifestações em junho de 2013 parecem ter dado um alento ao Brasil sobre o que é participar de uma sociedade além do cercado midiático, mas mesmo assim, ainda pairam dúvidas se toda a orbe que esteve nas ruas não estavam, justamente, fazendo um programa para a televisão. Aqui, o rebanho sempre fora abastecido com novela e futebol, nossas glórias nacionais. E, a partir deles, é que os diálogos na comunidade são montados, abastecidos e recriados. Ou seja, nossa via na polis, na política cotidiana das ruas, é baseada no que passa na TV. Não que isso não ocorra na bacia do Prata, mas lá, há muito mais tempo que aqui, as pessoas saem às ruas e se juntam contra ou a favor daquilo que julgam ser prejudicial para o convívio social. Lá, não há um monopólio audiovisual, em que a sociedade recebe as informações e apenas se diverte com isso. Pelo contrário, lá, há um questionamento, há um pensar muito além das manchetes engraçadas, e que dizem muito sobre o que o Brasil consome em termos de informação e cidadania.

Sendo assim, é possível pensar em três formas de se “torcer” na Copa 2014: a) como habitualmente, a favor do Brasil, contra a Argentina – sem se saber o motivo, apostando apenas no que sempre nos foi passado como resposta a uma certa “rivalidade” entre povos, mas com uma pitada de medo de se ver derrotado em solo nacional para os asquerosos vizinhos; b) em favor do futebol, torcendo para poder presenciar belas pelejas, independente do resultado, do vencedor ou do derrotado. Uma forma mais justa e proposta à emoção de se escolher um ou outro selecionado em determinado momento sem que isso influencie a culpa moral da pessoa, sem que se sinta um traidor da pátria; c) tendo consciência de que ganhar a copa do futebol é muito mais do que ser campeão em um esporte, mas sim, estar na vitrine do mundo, com a cultura e o indivíduo dessa nação demonstrando com a bola no pé e o grito na arquibancada, que é possível se equiparar e ser superior àqueles que, no papel moeda, sempre nos exploraram e contribuíram direta e indiretamente para nossa submissão econômica, cultural e política.

Futebol x Política: como o brasileiro reconhece seus personagens

O futebol talvez seja o único lugar em que as idiossincrasias geopolíticas possam estar metaforizadas dentro de um escopo de equilíbrio maior que qualquer outra coisa que tenha importância no mundo real. Não há nada nesse planeta que seja tão vital para a vida das pessoas, no geral, que seja mais mágico e empolgante do que a camisa de uma nação sendo triunfal nos gramados. Assim, é possível, de forma muito simplista, mas com uma pitada de verdade, listar países e um forte motivo para se torcer por eles na Copa esse ano:

Todos e qualquer um, afinal, na verdade, é preciso torcer para que o esporte da bola no pé seja como metáfora da luta cotidiana do indivíduo e do coletivo, uma luta pela consciência no espírito do verdadeiro conteúdo do mundo.

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