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Stencil – um espelho que diz e não se apaga

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As tramas urbanas com suas edificações, ruas e locais de passagem, representam para a sociedade a exteriorização de sua construção pública – institucional ou marginal, em confluência com as intervenções individuais e coletivas. Um muro grafitado, uma estátua de um político do passado e as marcações do trânsito são códigos que denunciam a plasticidade do corpo urbano e de sua sociedade, sejam essas marcas institucionais, oficiais ou “proibidas”. A ambientação urbana não é apenas um espaço de ocupação, mas também um local de processos que age como vetor de configuração e continuidade de relações que extravasam as fontes oficiais de comunicação. Assim, as mensagens e o contato visual com informações demarcadas anonimamente criam uma atmosfera de troca e renovação, no qual, o sujeito que se relaciona com elas retira impressões, atualizando a própria sensação de como a sociedade se vê além da TV e dos jornais.

Em um tempo em que a relação com a informação se intensifica, os discursos realizados através do stencil (serigrafite) nas ruas podem revelar anseios artísticos, sociais, políticos, culturais, entre outros de seus executores. Dentro do universo do grafite e da arte de rua, os stencils são imagens criadas a partir de moldes físicos que permitem a repetição, bem como, uma maior mobilidade para aquele que executa a pintura. A “informação” contida em sua área, geralmente em escalas reduzidas, pode ocupar vários ambientes de uma mesma região aumentando o alcance da mensagem. Sua potência está na informação que a peça iconográfica ou verbal carrega. Ele tem um sentido de falar ao outro e se comunicar anonimamente com o espaço público.

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Sendo assim, olhar para as imagens reproduzidas nas ruas (ícones/textos) também pode refletir o imaginário, a afetividade, o desejo, medos e frustrações que não necessariamente estão apenas no ambiente urbano, mas se referem às vivências territoriais/subjetivas do sujeito e dos grupos. Isso leva o olhar para o entendimento das práticas, das linguagens empregadas, das identidades ali deixadas e suas referências culturais, além da estética em torno da cena cotidiana.

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A intervenção no meio urbano é, em si, uma forma de diálogo e comunicação entre anônimos e também, vista como transgressão, principalmente, da juventude. O seu grau de comunicabilidade é bem acentuado por questões estéticas e de caráter social: a introdução desta cultura de rua e sua aceitação como prática vivem em um limiar entre os códigos urbanos “tradicionais” e aqueles novos, havendo um reconhecimento que ora o entende como vandalismo, ora como arte, dependendo do interlocutor.

Um dos responsáveis pela articulação global da técnica e de sua ligação provocativa, sem dúvida, é o artista inglês Banksy. Suas peças, hoje, já valem milhões e são disputadas tanto por fãs, quanto por colecionadores e até por órgãos oficiais. Em Londres e outras cidades da Inglaterra, suas obras receberam e ainda recebem tantos visitantes que as prefeituras locais tomaram duas decisões: num primeiro momento e, ao contrário da norma, não apagam os stencils ácidos e críticos ao comportamento ocidental. E, além disso, ainda os protegem de “vândalos”. Para quem quiser se informar um pouco mais sobre essa polêmica, assista ao documentário “Graffiti wars – Robbo vs Banksy”.

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O stencil no Brasil e na América Hispânica

Com a troca de informações globais cada vez mais intensa, nota-se o crescimento dessa prática de comunicação visual-urbana nas principais cidades do mundo desde o início deste milênio. Em uma primeira análise empírica, verificou-se que o stencil em cidades brasileiras apresentavam (até 2013) uma preferência iconográfica (imagem sem palavra) e ligada à produção cultural midiática. Estavam grafitados nos muros, artistas, ídolos da música, desportistas, celebridades e ícones de consumo. Neles, há intenções tanto de celebrar a imagem, como em alguns casos, de ironizá-los também. Uma produção urbana que se comunica, mas o faz a partir da (re)construção simbólica e histórica de signos já conhecidos. Ao se manifestar pelo stencil, o brasileiro, em sua maioria, o fez a partir de algo já constituído e, de alguma forma, conhecido do público que irá receber/perceber essas imagens na cidade, mesmo que ironicamente. Abaixo, uma peça grafitada nas Laranjeiras, bairro carioca que reproduz bem essa relação mídia-muro:

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Fenômeno disseminado pelas redes digitais, o stencil também está nas ruas de Buenos Aires, Montevidéu e Santiago, onde é possível enxergar também um número razoável desse tipo de comunicação urbana. Entretanto, a maioria dos trabalhos produzidos nessas outras cidades sul-americanas é verbal (contrapondo à maioria do que é encontrado por aqui) e carrega, muitas das vezes, um significado político e de imperativo à cidadania. Assim, ao que parece, nossos hermanos têm como premissa maior, nesse tipo de manifestação urbana, expressar suas opiniões e construções próprias, não necessariamente celebrando uma imagem, mas convocando o espectador à reflexão ou o levando ao convencimento de algo. Tanto aqui, quanto lá, as peças se comunicam, carregam estímulos informacionais, porém aparentemente, o stencil brasileiro se baseia em uma comunicação de massa e o argentino, chileno e uruguaio contêm ideais políticos do indivíduo que o executa ou do grupo que o planeja. Ou seja, por aqui, há uma intensão de se espalhar mensagens adaptadas do pré-concebido e midiático; já em nossos vizinhos, há um estímulo a se pensar a cidadania, o cotidiano mais literal, daquilo que a ele afeta.

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Não é o caso de se fazer uma comparação simples sobre o quanto somos engajados, mas até mesmo, do que podemos ainda fazer em nossos muros do dia-a-dia. É óbvio que o pensamento sobre a cidade como arena política também está presente por aqui – o stencil em si já é uma “desordem” e ele realmente, inspira o “desafiar”, mas também, é esclarecedor o quanto nossa cultura foi e é influenciada por um conteúdo que está à margem da realidade política e próxima à reprodução incessante de mensagens “legais” e divertidas que já nos impregnam no dia-a-dia e que, ao se comunicar com a urbe, não estimula, necessariamente, um diálogo, mas um sorriso, um agrado. São imagens interessantes, mas que não desafiam, celebram; não faz pensar além da casinha, concordam; e se evoca o tão importante “conheça-te a ti mesmo”, revela um aspecto coletivo de nossa sociedade – a reconfiguração a partir do já dado, reproduzida em nossa mídia coletiva e livre, a rua, de forma criativa, porém com um potencial de comunicação curto, não necessariamente, instigante, provocativo, subversivo e causador nato de continuidade a esse diálogo.

Ainda assim, após junho de 2013, uma instigante renovação das mensagens em muros brasileiros parece ter tomado conta de cidades como o Rio e São Paulo. A participação nos protestos urbanos possibilitou uma renovação naquilo que se via de stencil nas ruas antes desse período. A ousadia estética e a necessidade de se expressar de forma irônica, finalmente, começaram a povoar as ruas. Fomos acostumados e educados a entender que a comunicação vem de poucas fontes e feita em determinados lugares. Aos poucos, percebemos que essa é uma norma arbitrária: a expressão é livre e pertence a todos, bem como os meios podem ser criados e encontrados a todo momento, em muitos lugares. Hoje, produzir conteúdo depende muito mais do sujeito que se vê disposto a iniciar um diálogo do que de uma sociedade preparada para receber uma imagem ou uma frase que a escancare. Os muros podem falar de coisas que nunca dantes qualquer meio de comunicação ousou se pronunciar, mas que são também, valore, anseios e desejos de uma cultura.

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Publicado originalmente em Obvious Mag

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