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A mídia alternativa e os protestos

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Pensando na rede colaborativa de produção de informação que foi potencializada a partir das manifestações de junho de 2013 (a exemplo da midia NINJA); quais inovações são trazidas em relação ao trabalho jornalístico tradicional?

A verdade é que esse momento, muito mais do que trazer novidades, é uma época de evidenciação da passagem do mundo fordista para o pós-fordista e da produção imaterial de capital, na qual a informação passa a mediar as relações, suspendendo o dinheiro físico e a legitimidade somente pelo papel, digitalizando e simbolizando (ainda mais) o bem e o consumo. Por isso, a participação das redes sociais e das novas tecnologias de comunicação e informação como a câmera e o celular, foram tão “caras” na legitimação das manifestações. O exercício de pensar a coisa sem a cobertura das ruas e sem a relação de desejo que é (re)produzida no Facebook, por exemplo, traria um panorama cruel e mostra os atores neste momento:

A mídia só falando em vandalismo. Talvez, o rádio falando alguma coisa, dando um pouco de voz e uns e outros jornais fazendo certa cobertura e com artigos sobre a situação. Atendem para um interesse próprio baseado no consumo e na afirmação de si (da mídia) como algo poderoso, porém com uma neutralidade de olhar sobre si. Ingenuamente, alguns chegam a pensar no bem que fazem à população, entretendo-a com pequenos prazeres ou informando-a da violência diária e constante das ruas.

No contexto atual, a mídia brasileira, capitaneada pela Globo, Grupo Abril e Folha, além da BAND, ainda assim iniciou a cobertura com um discurso moralista, nos moldes modernos, paternalista, machista, patrimonialista e todos os xingamentos teóricos sobre o pensamento baixo do Século XX. O primeiro discurso do Jabor diz isso.

Aqui, os meios de comunicação de massa reproduzem um discurso contrário à moral política do governo do PT desde 2003. Ao mesmo tempo, nos estados, a mídia se posicionou pró ou contrária ao governo estadual, dependendo do alinhamento midiático/político/econômico do mesmo. Há uma tendência em enxergar uma linha editorial alinhada ou pelo menos, calada, em relação aos governos. É isso em Minas, no Rio e em São Paulo – neste último o estágio se torna ainda mais complexo com a prefeitura em oposição ao PSDB.

A mídia no Brasil é consensual, ela se coloca como um estandarte cultural, entretanto, nos bastidores desempenha um papel rico de mediador econômico e político – busca pelo consenso de alianças com os poderes  do capital e da União. A política imaterial da TV no país, por exemplo, é um estudo sério de dominação cultural baseada em estímulo-resposta. É importante frisar que a cobertura da mídia incluí o que ela não passa e o que ela exibe ao invés de informação, além de como informa os fatos, liga os fragmentos. Portanto, publicidade e programação influenciam na maneira como a cobertura também é feita.

O interesse do mundo pós-industrial

No Brasil, de capitalismo tardio, as eras econômicas se sobrepõem. Há territórios onde a industrialização ainda é a norma social vigente, regendo não só a vida econômica, mas o modo de se relacionar e o sistema de códigos que compõe o status quo do local. É evidente o papel dos meios de comunicação na opinião pessoal sobre si e sobre o global, dentro de um contexto regional, inclusive – massificação do comportamento, estandardização de imperativos culturais, produção de padrões de consumo, enfim – tudo isso na cultura está atrelada à relação do sujeito, da comunidade com os conteúdos exibidos, transmitidos e publicados.

Todavia, há um interesse do indivíduo e da própria comunidade que agora está ampliada pelo digital, que esbarra na maneira como a mídia convencional mostra a realidade da vida na cidade, da vontade do sujeito, daquilo que acontece nas ruas e no mundo. Há um nítido sentimento jovem de contestação da mídia – mesmo que um pouco esquizofrênico às vezes, com momentos de adoração (via mídia) e repúdio (à mídia). Assim, com a necessidade de mercado livre, o capitalismo implacável levou à população brasileira gagets, ferramentas para a construção de narrativas, inclusive, em tempo real. Máquina de fotografar que “filma”; telefone que envia foto, vídeos e opiniões pessoais ou institucionais; rede digital que publica fatos, pensamentos, fotos, vídeos e tudo o que for produzido pelos primeiros (com o Facebook, todos produzimos um jornal diário, uma produção de conteúdo de sua própria visão de mundo que pode incluir ou não a vida de outras pessoas, das cidades e de outros parâmetros como a sociologia, a psicologia, a filosofia e o comportamento social). E ainda existem outros elementos que também completam as “armas” dessa juventude armada de Nikons e Canons: laptops, tablets, minimodens que transmitem dados em trânsito, softwares gratuitos – muitas vezes piratas, de edição, compactação e envio de material para a Internet.

 Agora, é uma ilusão olhar para toda essa tecnologia é não perceber que a rua já estava sendo mediada e por vezes, por algumas dessas mesmas pessoas que produziram imagens independentes, feitas por si, sem ser em grupo ou até mesmo em parceria com amigos, não com empresas ou entidades, apenas – o que deve ser a minoria e inclui ai, as mídias tradicionais também para engrossar a conta de grupos empresariais cobrindo a época. Com essas ferramentas, muitos jovens aproveitaram os últimos 5 anos para produzir obras artísticas e conteúdo nos mais diversos propósitos – não só com o aparato digital, mas também, com tinta, papel e criatividade, influindo no mobiliário urbano com graffiti, picho, stencils, lambe-lambes e outras intervenções na cidade. E, claro, incluindo essas ações em momentos de manifestação pública cultural ou política. No Youtube você encontra diversas manifestações gravadas ao longo dos últimos anos. Marcha da Maconha, depois, Marcha da Liberdade, Marcha das Vadias, Movimento pela passagem gratuita ou mesmo, contra o aumento das passagens, como em Juiz de Fora há uns anos.

Talvez, as marchas de junho tenham sido a primeira vez que muitos levaram suas tecnologias para a manifestação. Porém, já sabiam como usá-la na rua. Afinal, têm tempo que tirar fotos e enviá-las para as redes sociais via celular, por exemplo, é algo cada vez mais normal e crescente, principalmente, entre os jovens.

 Junho de 2013 foi o estopim para que fique claro para a sociedade brasileira que há como rever a produção de si – não tem como legitimar o Brasil somente pela Globo ou pela Folha ou Veja. Nosso país tem agora 200 milhões de jornalistas, independente, dos riscos e da qualidade da informação. A Globo primeiro, e depois, a própria ordem mundial, autorizou isso, é uma estratégia do mercado neoliberal: gerar um valor para a fama, o sucesso material e o cumprimentos dos desejos individuais ou de grupo, criando consumidores-produtores para que aumentem a produção de conteúdo e, sucessivamente, de consumo. Criar reality shows para que novos sujeitos se tornem produtos. Enxergar produtos em todos os campos possíveis e comercializá-los. Se comercializar pelas redes sociais, fazer branding de si.

 Da mesma forma que o sujeito e as entidades econômicas tomaram para si essa nova maneira de relação, como fizeram isso também é um ponto importante – mídia tradicional e novos atores, desprovidos ou não de propósitos jornalísticos, cada um, teve sua ação, reação e linguagem. Gente comum postando vídeo, jornais reproduzindo informações da internet e claro, a criação de redes de informação e cobertura de mídia livre. Grupos reunidos em faculdades e na Internet, construindo sites, blogs e páginas no Facebook para a transmissão dessas informações sem que haja, necessariamente, uma edição, um conselho editorial, mas sim, a busca por expressar esse novo tom da sociedade: produção de conteúdo mediado pela tecnologia. Entretanto, com o foco claro de denunciar a violência da polícia, a ausência do Estado e a distorção da mídia, além de evidenciar essa potência de exposição de fatos.

 Até agora, a experiência mais radical está sendo a da MídiaNinja. Uma página surgida no Facebook há alguns meses, mas que porém, carrega em si uma carga de experiência muito maior do que se pensa. Ela é um processo contemporâneo que há alguns anos vem sendo utilizado por coletivos, principalmente, o Fora do Eixo. A MídiaNInja é uma extensão da Pos-TV (http://www.postv.org/). Há cerca de dois anos, ela é responsável por transmissões de reuniões, encontros e outros conteúdos via Twitter. Geralmente, estão ligados à discussão desse novo momento, das novas relações imateriais, com democratização do microfone e aceitação da opinião alheia. Foram épicas algumas de suas transmissões como em São Paulo no dia 18 de junho, em Belo Horizonte, na ocupação da câmara e no Rio, no dia 20 e depois, no Leblon.

 Há uma necessidade de se saber o que está acontecendo onde o conflito está ocorrendo. Onde o aparato de repressão da polícia covardemente agride a liberdade de expressão e até de ir e vir das pessoas. Independente das provocações e agressões ao patrimônio, a reação do poder coercitivo só pode ser visto, medido, sentido e a ele, reagido, por conta das imagens dessa nova mídia que em si, não é uma instituição nos moldes modernas. Entretanto, não pode ser acusada de hiperfragmentada ou sem identidade. Afinal, sim, por mais que fossem muitos, as suas imagens reproduziam o mesmo momento. Embora em pedaços, a busca era a mesma: capturar/exibir situações extremas dessa relação entra a força do passado e daqueles que insistem em um novo presente.

 O que se espera, mais do que manifestações, é que esses agentes possam ser reconhecidos, legitimados e integrados à produção de conteúdo desse novo momento social para o Brasil. Os agentes são os indivíduos e os grupos livres, agora reconhecidos na marra pela sociedade brasileira, mas que ficaram evidenciados já em 1999, em Seattle – causas diversas, às vezes até conflitantes, mas que conscientemente tinham o propósito de questionar as posições do estabelishment, na época, das ações da OMC (Organização Mundial do Comércio) e da maneira como as pessoas estavam sendo obrigadas a viver dadas as imposições para a vida cotidiana do neoliberalismo. A mídia europeia e americana se renovou. Os blogs passaram a influenciar a sociedade e a opinião pessoal sobre os assuntos do mundo ou do indivíduo também adquiriu peso nas decisões individuais e coletivas, seja para a política, para a cultura ou para o consumo. A questão toda é saber se o Brasil vai conseguir se legitimar mesmo enfrentando o monopólio da verdade na figura da Globo – como um todo, e a relação umbilical do poder com os meios de comunicação tradicionais, principalmente, na figura do legislativo e governos estaduais/municipais que muitas vezes são donos, sócios e parceiros de veículos.

Pessoalmente não sei como seria se o posicionamento da Globo contra o governo ficasse mais evidente e tentasse influenciar uma deposição política na marra, como se fosse um ato legítimo da democracia e da luta contra a corrupção.

Rede Alternativa

João Paulo de Oliveira

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