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O presente preso ao que podia ter sido o passado

Sonho um dia com um futuro no qual o vazio será o império do sentido. Há em minha época um excesso desnecessário que me impede de velar pelas pequenas coisas. Eu culpo o momento, mas talvez seja cego e iludido para enxergar que na verdade, essas pequenas coisas não param de acontecer e eu, só eu, não paro para refletir e vivê-las.

Há dentro de mim um fogo que consome a razão e não me deixa paralisar o que não posso frear. Continuo a queimar, queimar e queimar. Sigo em frente como um poste incandescente que se movimenta com o sopro de sua paralisia. Sou um fósforo a ser consumido pelo tempo que não me espera. Grito sem economias pela evasão de meu ego em ruínas construídas pela pá que minha mão direita empina e minha esquerda alimenta. Porém, madame Bla não me deixa mentir, diz ela para não ligar o carma, mas se ele estiver a solta, que não me importe pelas veredas que ele tenha escolhido. O caminho – que não há, é o traçado pelo qual luto e vibro, ou lutei e vibrei.

Deixei a culpa por ter morrido pobre e renascido em um país mais louco que o de origem. Aqui não tenho estirpe e fui condenado pela genética a deixar a casa muito cedo. Diferentemente da última parada em que pude permanecer, mas o tempo todo, quis sair. Trouxe para essa instância a verdade que não era-lhe permitida, mas minha soberba trouxe também um quilo de lágrimas que infortunam minha alma até quando já não sou ela mais. Sobre o meu túmulo jovens se lamentam e vangloriam de serem distantes e próximos ao que aparentemente eu podia ter sido. Apodero-me de tais almas como se fosse um demônio, mas não, deixei a alcunha de miserável. Desejo para minha vida atual a salvação de minha danação. Ainda assim, demorei muitos anos para acordar da lama que me julga. Não consigo, nem nessa outra vida, esquecer o que talvez pudesse ter feito com minha existência anterior. Entreguei-me ao desvario e de mim só sobrou a filosofia e a arte, mas pouco restou do que realmente pude conquistar.

É difícil falar do presente preso ao que podia ter sido o passado. Quando me tomo da letra, penso sempre que será possível. Entretanto, quando enfrento esse forte espectral que comanda minhas digitais, acordo e percebo que é um desafio conseguir escrever sobre o que os olhos e os ouvidos querem saber. Só consigo matizar em meu espírito as dores que podem passar em palavras e as frases silenciosas que abarcam o meu coração.

Qualquer tipo de narrativa que compreenda uma outra persona cai completamente no vazio e na dúvida. Já não escuto como antigamente, já não mato como fazia antes. Quero exterminar meu narrador, por mais que saiba que ele é quem permite que eu possa viver.

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