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Reperformance: repensar

Numa tarde de dezembro, cruzava a avenida quando de repente me deparei com uma cena. Eram pessoas pensando.
Atravessava a avenida uma dupla das mais comuns em qualquer cidade. Um cão e sua dona, senhora. Todavia, o cachorro negro de cara branca era representado por um homem de quatro, no sol do mês e se arrastando pelo asfalto e pelo passeio irregular.
domingo-14

Acredito que muitas pessoas tenham se confundido. Ouvi relatos perto de um fast-food em que elas desconfiavam que seria o contrário: aquilo era um homem fingindo ser um cão. Teve até quem achasse que o cachorro era na verdade, um homem pagando promessas. Uma outra pessoa pensou em se tratar de um canino representando a submissão do homem à mulher.

domingoUm senhor e uma senhora que vinham pelo caminho. Pararam, discutiram o que poderia ser e não chegando à conclusão alguma, tomaram uma decisão: eles não sabiam do que se tratava, mas alguma coisa deveria ser feita. Enquanto a mulher passou a investigar os outros elementos, ver o entorno, remexer os próprios pensamentos de Marie Claire, o homem ligou para a polícia:

domingo-19“Olha, aqui na altura da Santa Casa está acontecendo alguma coisa estranha. Tem uma mulher jovem arrastando um homem, em uma coleira como se ele fosse um cachorro. Não sei se é alguma coisa artística ou se eles estão em um estado de loucura, de qualquer forma, é interessante mandar alguém aqui para ver…”
Passado alguns instantes, depois de sua esposa conversar com o grupo que seguia de longe a dupla e entender do que se tratava, o marido, então, chegou a uma conclusão:
“Ah, então vai passar no Fantástico? Ué, então vamos chamar o pessoal… eu vou aparecer no Fantástico”
A dupla continuava seu trajeto. No caminho, o cão encontrou com outro, menor e não se estranharam. Embora, o outro, um cão-cão tenha ficado um pouco encabulado com as investidas do homem-cão. Cheirou até o rabo do cãozinho, tentou subir as patas.
domingo-13No ponto de ônibus, pessoas vindas de um culto evangélico rogavam sofrimentos à mulher, pois ela estava indo de encontro a Deus. Que ele a puniria pela forma como estava a tratar um homem (ela não conseguia enxergar que ali havia um cachorro, como?). Agora, pensando, me vieram duas coisas: a palavra pentecostal praticada coloca a mulher como submissa ao homem. Isso é fato e há até quem tente argumentar e racionalizar uma ficção cultural fantasiada – mal e porcamente – em sentido religioso. Não é possível julgar, mas se fosse uma mulher talvez ela perguntaria qual havia sido o seu crime para estar assim. O homem já está absolvido de qualquer ação, antes mesmo de se anunciar quais fatos regem a situação.
A segunda coisa a qual me remeto está de acordo com essa última, porém sobre a visão antropológica que acredita qualquer ser como humano e que deveria ser tratado de tal forma. A indignação e maldição oferecida pelo grupo de evangélicos – que não representou a reação de todos – foi por conta de ser um homem-cão, é provável que para a maioria das pessoas não haveria problema se fosse um cão-cão. E não seria só por causa de religião – se a mulher é submissa o que deverão ser os animais? – não iriam se incomodar se estive na coleira um outro canino que andasse de quatro, mas com menos aparência de gente e mais de cachorro tradicional. Cada vez mais fica claro que corpos e almas não são necessariamente retilíneos – existem cães com alma de gente e gente com espírito de rebanho, domesticação.
domingo-20Por fim, a polícia passou, olhou e foi embora.
A performance “Happy Dog”, apresentada por Silvio de Gracia (Argentina) e Ana (Cuba), aconteceu durante o FAC I (Festival de Artes do Corpo): reperformance. O Festival foi realizado na Casa de Cultura pelo Instituto de Artes e Design (IAD/UFJF) e contou com a participação de professores e artistas durante o sábado e o domingo. Foram realizadas palestras e performances, além de exposições de fotografia e exibição de vídeo.

Acesse o site do evento: http://festivaldeartesdocorpo.blogspot.com.br/

E curta a página do festival no facebook

Lúcio Agra foi o convidado especial do evento. Sua fala trouxe o questionamento sobre o que pensam os brasileiros sobre si e como os estrangeiros nos vêem. Em suas ideais, o posicionamento do Brasil como o Oriente do próprio Ocidente. Visto por europeus e americanos como exóticos, entretanto, olhados por si e para si, como vira-latas.
lucio agra

Algumas fotos de sábado e domingo:

Raissa Ralola – AMO (Ateliê Móvel Oficial)

FAC-005

Foto: Leonardo Lina

Raphael Couto – (Re) Marca Registrada
FAC Sábado-12
FAC Sábado-9

Priscilla de Paula – Blossom Girl
FAC Sábado-13
FAC Sábado-24
Eliane Bettocchi – Performance em Quadrinhos
FAC Sábado-34
Claúdia Rangel, Guilherme Landim, Luciana Maia e René Loui – Movertualizar-se (vídeo)
FAC Sábado-38
René Loui – Ritmo Zero
FAC Sábado-42
Henrique Saidet – Imponderabilia
domingo-22
Fernando Audmoue e Sol Pacheco – A mística de Joseph Beuys
domingo-9

Discussão

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