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Dudu Costa | Um império entre o mar e as montanhas

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O que somos? não se trata de uma questão filosófica apenas. É uma reflexão que pode ser inscrita dentro de categorias da vida coletiva e pessoal. O segundo passo é entender quem pergunta, de qual platô acende-se a chama para a retórica. Antes disso, entra a cultura, esse fazer, estar, permanecer com variados conceitos e audições, mas que nesse caso pode ser vista como o objeto a ser encontrado pela pergunta: qual é a nossa cultura?

Isso poderia ser questionado do ponto de vista de um habitante do universo (qual a cultura universal?), de um terráqueo, de um povo, como o brasileiro, de um tipo de profissional ou vida exercida. Temos as próprias pessoas, os estudiosos e as lentes enquadradas dos meios de comunicação como mediadores dos valores culturais praticados, vistos e modelados. É claro que não existe uma unidade concisa e a pluralidade de culturas e hibridismos produz diversidades. Entretanto, reunindo esses três fatores – indivíduo, sociedade e mídia, é possível tentar delinear quem pergunta o que é, quem quer saber sobre si, sobre sua cultura.

A vida é o mar

Dudu Costa é mineiro, historiador formado pela UFJF e há dez anos interpreta, compõe e escreve músicas. Em 2012, lançou seu primeiro álbum “Império de Sal”, contemplado pela Lei Municipal Murilo Mendes de Incentivo à Cultura, lei de Juiz de Fora que premia projetos artísticos e culturais com dinheiro, anualmente. Influenciado pela melodia do Clube da Esquina e das montanhas mineiras, o botafoguense Dudu Costa escreveu músicas que falam do mar, das montanhas, da vida que brota das águas, do amor que esmaece no oceano.

“Império do Sal” também é o título da primeira faixa do álbum. Nela, os acordes de Daniel Lovisi dão a sensação da jangada da vida em alto mar, do homem que deixa sua moça no continente e, pela crença em seu olhar, guia-se pelo breu do oceano, na promessa de voltar a reconquistar seu reino. Sebastiana e romântica, acompanha na mesma toada, outras faixas como “O descobrimento”, “Fogo mar”, além da política “Miraflores”  que trata do tráfico negreiro e, “Branquiara”, uma ode ao amor, com interações com as lendas, folclore e a religiosidade do mar.

A sabedoria e contemplação da alma nas montanhas, a história violenta da escravidão em Minas, a religião e a dor da despedida também se fazem presentes no restante do álbum. A amálgama de sentimentos e referências ajudaram a artista Valéria Faria na composição do belo encarte que acompanha o material. “Remeti ao lirismo das canções e ao seu universo poético que abrange lugares reais ou imaginários, lendas, lembranças e pessoas do afeto”, diz. Dudu Costa em “Império de Sal” contou com a participação de músicos locais como Wesley Carvalho, Lucas Soares, Arnaldo Huff, Roger Resende, Hudson Coelho, Juliana Stanzani, além de Daniel Lovisi.  Portanto, uma reunião de mineiros em torno daquilo que não possuímos, do grande impossível, o outro, o mar. Ele que também se refere ao inconsciente, a aquilo que nos é desconhecido, mas determinante. Um mistério de perdas e promessas de porvir e prazer.

A partir desse ponto de vista híbrido e de paradoxos apresentado nessa obra genuinamente juiz-forana, das montanhas e do mar, vem a pergunta inicial: o que somos? O que é Juiz de Fora? O que é daqui? Quem somos nós?

Há anos convive-se com a valorização do que há lá fora. Uma dificuldade mineira tradicional de ver na própria casa a resposta para as angústias, um desconfiar do que é produzido no pomar, da água que cai da cachoeira, das intenções dos vizinhos e familiares. A montanha parece limitar o horizonte. Ao mesmo tempo, vivemos na fronteira, recebemos há décadas influência direta de um imaginário idílico/caótico carioca. A cultura midiatizada é ainda mais próxima pelos clubes de futebol, pelo gosto musical e pela sonhada vida no Leblon das 9.

Por mais que tenhamos talento e artistas com gana e qualidade para trabalhos autorais dignos de reconhecimento nacional, é muito complicado que obtenham o necessário valor em nível local. As rádios não têm qualquer costume de tocá-los, tampouco temos programas locais de TV com valorização específica ao músico daqui – no máximo notas e matérias de agenda. Publicações e magazines são raros e de nicho. O veículo que melhor atende a esses anseios é o Caderno Dois da Tribuna de Minas, mas é bem pouco em função da demanda e da explosão da música na cidade. Além disso, muitas vezes não há uma política empresarial de valorização do trabalho do artista de Juiz de Fora. Paga-se desproporcionalmente um cachê maior aos de fora, independente da qualidade ou mesmo do público que a atração local carrega consigo.

Por essas e outras é importante que se escute Dudu Costa. Suas músicas além do prazer da audição, seja nos acordes dos convidados, seja por sua voz, possuem conteúdo, inteligência e expressão de nossa terra, do nosso ponto de vista, algo pouquíssimo valorizado, percebido, porém muito rico, pois estamos em posição privilegiada de observadores de uma vida campesina por um lado e metropolitana por outro. A mente em turbilhão de possibilidades e referências cosmopolitas e a vida mais branda do interior, da realidade muitas vezes angustiante do entre-lugar, daquilo que poderia ser. É um trabalho que vai de encontro a crença de que Juiz de Fora é um lugar de passagem, de pouca afirmação. Dudu prova que não, que aqui existem espíritos que tateiam o mundo com tanta sensibilidade e talento como em qualquer outra coordenada do mar do mundo. Ainda mais alguém criado nas montanhas, no vale do bairro de Santa Luzia, com o coração escutando os balanços das ondas no vento e os olhos mirando o império de sal prometido.

Neste próximo dia 20 de outubro, Dudu Costa e Kristoff Silva de Belo Horizonte, apresentam o show homônimo ao álbum pelo Circuito Música da Cidade, no Centro Cultural Bernardo Mascarenhas (CCBM), a partir das 20h.

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