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Sinhá | fechando o peito com buracos

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Sinhá  –

“quer o sagrado das ruas
e a calma de estar em si.
longe da frieza dos mundos
amor por tintas palavras”

Peço benção. Os versos acima pertencem à descrição sobre a autora e está na contracapa do livro “devolva meu lado de dentro” – poemas de SinháO “pixe” não vem assinado e por ser assim mesmo, transparece uma alma reflexo, espelho cotidiano de gestos. Como se um espírito pudesse dizer como é um homem, de carne e alma. 

O desejo de Sinhá é estar fora, nas veias expostas da cidade, para procurar a si, roubada, estocada, separada do de dentro, daquele perdido que clama pela volta. O coração, o detalhe, o momento, todos superados pela entropia, o seu desfazer na forma figurativa, na substituição do anterior pelo o quê virá!

“No telefone curto, o amor mudo”

Sinhá, da linha de Eva, é uma alma metafórica. Seus poemas, muros e outras linguagens mostram seu desaguar, extensão viscosa, colorida e verbal de seu vazio e suas vazões, como um delta maravilhoso que se estende do mundo ao útero, do outro aos âmagos dos personagens.

Também na contracapa, saindo do trivial, Criolo vai falar que aquele que escolheu “o quase viver, o quase sentir e o quase tentar”, não queira visitar Sinhá, não vale a pena se frustrar, porque o efêmero não vai colar. Quem se sente seguro, não precisa saber dessa mulher e de todo o véu que lhe acompanha. Para ele, o incômodo será insustentável. Ela, por habitar uma dimensão onírica, envia um estímulo e uma vontade imensa de desvendar o que antecede o gesto, o que há no antes, no anterior à brasa e à transformação. Antes que o verbo tenha sido feito carne, Sinhá pergunta, mesmo que afirme!

“Sentamos à cama, sobre a colcha de xadrez e comemos nossos corações”

Pedindo benção – Conheci seu momentum na edição de março do Cabaret Revoltaire, no Zé presidente. Ela pintava uma sensação com tinta e no formato de uma mulher que parecia muito, muito mesmo, com a Nina Simone.

É muito difícil fazer alguém acreditar em poesia de jornalista às 4 da manhã, ainda mais quando você vive num mundo onde pode-se falar quase tudo para se alcançar dois ou três objetivos que geralmente é um! Poderia estar falando sério: “vou escrever sobre você, impressionante sua calma no meio dessa circulação de estímulos”, ou não – podia ser o caôzim barato de mais um encantado.

“quero você num conta-gotas | dissolvido | pingando em meu peito, | nossa tortura chinesa”

E mulheres estão bem sagazes ou pelo menos, muito mais independentes que o ocidental típico com o seu pensamento baseado na glória decadente européia do Leblon ou na alienação sorridente do sonho pseudo americano. O feminino é arte pura, extravasada, exteriorizada, uma vitrine intocável, mas que completa de alguma forma, remodelando vazios. Foi preciso ir tangenciando, observando, sentido para então poder se tornar foco. Ela me permitiu observar, respondeu algumas perguntas, foi paciente. Fiquei viciado na doçura, fragilizado. Meu corpo para Sinhá sempre esteve reclinado, nunca 90º – vassalo e observater. 

“Quero estar à beira do rio que cai dos teus olhos”

Sinhá veio do fogo, da terra do nascimento, da onde se cria as criaturas. Trouxe consigo uma poética dilacerante que nos conduz como versos contados com emoção e explosão. Eles vêm crescendo e se tornam murro no coração. Diz alto na cara, escancara uma falta, uma dor pela incompreensão. A leitura imprime um ritmo que de repente explode. Algo como um Leminski, um beat, só que mais sofrido, mais datado e com uso do tear-pensamento. Um blunblun blun, pá!!! Vem como uma imagem poética, uma porrada.

“Fiquei sem saber  o que era corpo e o que era céu”

Ela consegue encantar e “desencantar”, tirar a gente desse mundo e colocar no chão, ao mesmo tempo!

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No tumblr de Sinhá – http://sinhacrua.tumblr.com/, já é possível perceber o valor multidimensional de seu pensamento artístico, é a prática visualizável do global e local, de SP e Natal, do dentro e fora. Não uma dubiedade simplista, mas a passagem de um estado ao outro, o caminho, não a solução. Mistura a prática da rede, mas imprime noções e referências retrôs, de tempo e/ou lugares que são menos novidade e mais interior. Há um texto muito bonito, expressivo, com uma tipologia e registrado de tal forma que resgata uma verdade, uma sinceridade num certo cânone de se escrever, na letra de máquina, no papel desbotado. Texto, estética, memória:

Além das fotos de suas poesias, no tumblr também estão registros de peças de graffiti, telas, suas personalidades, outros objetos e obras. O artista tem um olhar que não é olho e que se extravasa por todos os portos possíveis de sua alma e de seu fazer.

************************************************ O lançamento do livro aconteceu no bar Maria Madalena, na João Gonçalves com a Fidalga, na Vila Madalena. A atmosfera do lugar também contribuiu para a aura refrescante da anfitriã e de suas correntes – as palavras explodidas.

perdão!

Quem se interessar pelo livro, entre em contato com a própria autora pelo e-mail evelineg@gmail.com

Discussão

Um comentário sobre “Sinhá | fechando o peito com buracos

  1. Parabéns, J P de Oliveira por sua leitura carregada de potência poética e de outros signos. Traduções de um olhar sensível, amalgamado nas configurações de tessituras imbricadas de várias & várias vozes – as mesmas que podem transformar o dentro e o fora – numa fronteira contínua e curva, onde vivem as complexidades. Em consonância com a sua leitura, J P de Oliveira, percebo também que a poesia da Si Nha, tende ao movimento circunscrito por elos entre “locus” de singulares dobras. Quais são essas dobras? Que cada leitor, ao entrar em contato com a obra da Sinhá, tangencie essas dobras e lhes ressignifiquem.

    Com um abraço, Lia Testa.

    Publicado por Lia Testa | 26/04/2012, 16:52

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