//
Acrescente
Artes, Cultura, Fotografia, Internet, Mídia

O que Benjamin diria ao Zuck?

Pierre Lévy disse que passamos da oralidade à escrita e dessa ao digital que reúne, é multi, produz, distribui etc. Sim, vemos a informática, a internet guiando os padrões, modificando lógicas comportamentais, influenciando velhas práticas. Entretanto, parece que substituímos ou melhor, atualizamos a escrita – esse desenho sequencial intermitente que simboliza um som e um significado ou vários significados e que sua unidade se chama letra, conjuntos são palavras e conjuntos dessas, frases, períodos…

Fotografia - informação e/ou êxtase visual

A fotografia, mídia, meio de expressão do século XIX é uma nova escrita, feita de luz e bytes e em vários dispositivos cotidianos. Ela atualiza a relação de codificação/descodificação, que é a leitura de palavras, interpretação de sentidos de frases. Na fotografia, essa leitura pode chegar a um sentido subjetivo ou a uma sensação, pode ser a memória que a foto traz, os ângulos, as relações de texturas, objetos, o enquadramento etc;

A produção de informação na escrita prescinde de um meio que é adaptado ao sistema motor superior, mãos e dedos,  ligado ao cérebro e esse, por sua vez, conectado ao nível de intenção, criatividade, intuição e técnica do sujeito, reproduz para as mãos que passa à ferramenta, que solta o líquido ou rompe a solidez, exibindo dada informação em forma de palavras, frases, parágrafos, desenhos etc.

A partir de uma máquina fotográfica digital, analógica, um celular, smartphone, uma pin hole, lomo, diana etc etc, a relação da intenção, criatividade, intuição e técnica aparecem de uma forma mais evidente. A imagem diz  alguma coisa mais evidente, que os olhos, a mente e o coração identificam intuitivamente. E, hoje, as pessoas estão tentando dizer por elas, intensamente. Ao mesmo tempo, utilizam a força das palavras, das legendas – a multilinguagem permitida pelo digital, que dizem algo também de informativo, poético, elucidativo ou enigmático sobre a foto ou o que acontece nela, onde, com quem, com quais comentários etc.

Antigamente se apreendia o mundo com lápis e caderno; depois veio a caneta – que não pode ser apagada e, depois o computador que modifica o tempo e o espaço. Agora, popularizou-se a criação de imagens e a circulação e a colocação de sentido nelas. Seja por fotos puras ou por imagens manipuladas, com ou sem palavras e outras formas de intervenções e, consequente, reforço de sentido/lógica.

Instangram, Facebook, Google, I-Phone discutem fazendo e fazem discutir a massificação da fotografia e excitaram e incitaram palavras de amor e ódio entre frequentadores das redes. Usuários primeiro passaram a ridicularizar o fato do Android, sistema mais barato que o similar da Apple, ter agora acesso ao programa/rede que revolucionou a distribuição das imagens e suas formas de exibição – o Instangram. É o que Benjamim discutia, o que Adorno bradava como terrível para as artes. Democratizar é bom ou ruim? Dar acesso é algo que o poder hegemônico tem medo de oferecer, pois podem surgir novos atores, mas também, ele quer isso, quer o excesso de consumo que conduz ao lucro e é capaz de criar novas formas de coação e dor na sociedade, bem como de encontros, salvamentos e pura comunicação. É contraditório, como tudo deve ser.

Há quem  apóie a democratização da tecnologia, na qual várias pessoas passam a ter meios para publicar suas fotos com filtro, descobrindo imagens sensacionais, revelando questões importantes, encontrando vocação para a coisa ou simplesmente, enchendo a própria timeline e consequentemente a das outras pessoas com fotos. Há quem ache ruim, há quem tolere, há quem se manifesta… sempre haverá.

Todavia, há também quem ache melhor o pouco acesso, para que especialistas possam garantir sempre uma qualidade ou uma reserva de mercado – afinal de contas, não é ingênuo ter medo – temos a música e o cinema como provas cabais daquilo que se transforma quando a indústria cultural entrelaça produtos ao entretenimento e ao poder, em buscas de criar cultura de consumo para várias camadas da sociedade.

Será preciso revelar mais fotos?

A fotografia, o recorte da luz, a utilização de ferramentas que estetizam o quadro, técnicas ou momentos, fazem daquilo muito mais do que o contraste entre o claro e o escuro. Um dia já foi dita como a memória, uma cena morta, porém eternizada em um suporte. Ela permanece com esse status, mas um outro também se evidenciou: a comunicação. Fotos estão lotadas de sentimentos e sensações e observações e coisas que às vezes nem conseguem ser ditas. É um estado bastante íntimo, interno, instâneo, porém sem deixar de ser reflexivo. É uma nova linguagem que deve ser permitida e praticada, porém que vai trazer muitos questionamentos em função da invasão/evasão do indivíduo… ele é exposto e pode expor; também, pode se recolher e fazer com que se recolham. Sua observação e prática é um exercício para o espírito e para a multidão.

E falou-se disso num dia e no outro o dono do Facebook comprou a empresa. Muita gente nem sabia que a coisa existia, passou a saber, valorizou a informação sobre o produto. No dia seguinte, arremate. Não entendo de mercado financeiro, mas alguma coisa aconteceu nessas relações promíscuas entre jovens milionários e hedonistas.

Discussão

Nenhum comentário ainda.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Leia!

Tryoka Koletiva

Obvious

Sons & Vibrações

Blog de Fotografia

BLOG

%d blogueiros gostam disto: