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Let It Beatnik, Literatura

kerouac Vs Camus | Let it Beatnik

Acordo assustado na cabine do navio. Olho pela escotilha e vejo que já estamos próximos ao porto de Tanger. Ao fundo, milhares de construções nos esperam ansiosas pelos nossos desejos do mar. Sinto meu corpo molhado de suor e abandono aquela imagem. O quarto escuro me traz de volta ao sonho que acabara de me acordar. Estou em Lowell, mas meus pais se mudaram para Ozone Park. De repente o telefone toca e do outro lado da linha, meu pai tem uma voz fúnebre. Não me sinto preocupado com o estado emocional de sua fala e apenas o escuto em seu lamento: “ J, sua mãe morreu. O enterro é amanhã. Se puder, venha para cá”. Respondo apenas “sim” e desligo o aparelho. Como estou com muito sono, volto para meu divã e lá adormeço. A noite passa e na manhã seguinte Lucian Carr aparece na porta da minha casa. Ele me cumprimenta com pesar, mas mesmo assim, nada abala minha vontade. Chego a esquecer do porque daqueles gestos. “É, ela se foi. As coisas são dessa forma nesse lugar”, digo saindo pela porta. Carr insiste e me interroga sobre o por que de não estar triste por aquilo. Não consigo dizer, apenas sinto uma total indiferença pelo desaparecimento de “Gabrielle Kerouac”.
Agora ao me lembrar disso, me assusto. Já não via em meu espírito qualquer vestígio materno, mesmo estando neste momento, fora do sonho, dentro de um navio e sabendo que minha mãe está viva em algum lugar do outro lado do mundo. Todavia as lembranças oníricas prosseguem atormentando a minha vigília. “Lucian, qual é mesmo o seu problema?” É o puto do árabe, responde. Ele está louco atrás de mim, quer as minhas bolas de qualquer forma e não sei o que fazer. Fique tranqüilo, amenizo. Amanhã resolveremos o seu problema.
O sonho prossegue em uma louca viagem na qual deixamos Lowell e rapidamente chegamos a um cemitério em algum lugar de Nova York. Lucian me aponta o sujeito, ele vem em nossa direção. Seus olhos estão marcados pelo ódio, mas parecem ao mesmo tempo, apaixonados por Carr. Eu me afasto, os dois conversam em particular. O árabe tenta enfiar a mão nas calças do meu amigo, este evita e o golpeia na fronte. Um intenso nevoeiro nos prende em uma redoma. Desespero-me em meio aquela cegueira e tateio o chão tentando encontrar algo para apoiar. Sinto uma arma, um revólver. Empunho a coisa e armo o gatilho. Nas mãos do árabe, uma faca dança no ar. O vento frio corta o meu pensamento e força meu dedo que, sem trégua, acerta o peito do homem. Ele agoniza, mas sinto-me potente o suficiente para despejar-lhe outros quatro disparos. Lucian Carr se aproxima de mim e segura meu braço. Seu toque se torna diferente, mais suave. Sinto um cheiro conhecido, parece um perfume. Olho para o lado, ao invés de Carr, quem me segura é minha mãe. Ela já não está morta, mas seu odor, antes um perfume se transforma em algo altamente podre, como que em decomposição. Tento me desvencilhar de sua posse, mas não consigo. Ela mira meus olhos com seus olhos de cadáver e diz com a voz do próprio Lucian Carr: “Sua sentença será de acordo com a indiferença pela morte de sua mãe. Você será condenado ao inferno e assim como este árabe, seguirá sua eternidade agonizando por sua inexpressiva existência”. Foi exatamente neste instante em que eu acordei completamente assustado com tudo aquilo.
Na manhã seguinte, já em terra firme, tenho um encontro marcado com um agente que pretende publicar meus textos na Europa. Seu nome é Maurice e parece um sujeito interessante. Ainda atormentado pelo sonho, não me concentro em nossa conversa. Tenho uma louca vontade em reparar um erro. Ele me convida para uma festa em sua cobertura de frente para o mar. Recuso a oferta e perco a oportunidade de me tornar alguém conhecido no velho continente, deixo para o futuro qualquer julgamento, tanto sobre minha mãe, quanto sobre livros ou assassinatos.

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