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Artes, Literatura, Prosódia

breve tipologia para um romance naturalista

André Monteiro (duidimonteiro@hotmail.com)
usa chapéu porque deseja parecer poeta, ou pintor francês, ou cineasta italiano, ou porque leu, ou nem leu, gilles deleuze e deseja ser gilles deleuze. gosta mais de frio do que de calor porque no frio pode se sentir mais europeu e não apenas beber, mas, principalmente, falar com suposta propriedade, tal como um animal refinado, sobre todos os vinhos do mundo. acha bonito ser um jovem de classe média blasé e se masturbar com rock inglês num sábado de tarde nublada. num piscar de olhos, acha que pode se livrar de todos os vícios e dicotomias ocidentais porque leu, ou nem leu, o santo nietzsche. facilmente confunde transgressão com grosseria. faz dança e anda por aí como quem faz dança. beija e abraça todo mundo como quem acredita (ou quer parecer que acredita) que abraçar e beijar todo mundo é ter o corpo livre. todo mundo não, bem entendido, só os mudernos, os que não são mudernos finge que não vê. fala mole, tal como o afetado do avô bicho grilo fala mole, tal como se ninguém tivesse que pagar a conta da sua velha boutique neo-hippie. fala mole e arrastado tal como se o mundo fosse mole e arrastado. goza com o pau dos outros sem a menor cerimônia. acredita que para ficar nu basta tirar a roupa e que ser um artista do corpo é produzir o escândalo do corpo e tratar o público como um débil mental que se choca, se chocaria, com excrementos aureolados. nem desconfia que qualquer picareta, alpinista social travestido de artista, se sacraliza com a estátua da própria pica, ao roçar, na hora certa, curadorias de merda. acha bonito beijar seus amigos na boca na frente de todo mundo. certamente, não fica à vontade em sua enorme preocupação de ser visto como uma pessoa super à vontade. talvez não passe de uma vida amassada e pisada pelos padrões escolásticos da indústria cultural odara. talvez não saiba que existem padrões escolásticos da indústria cultural odara. acha que é possível viver  uma relação aberta e não ter ciúmes de nada ou ninguém, nem sentimento de posse sobre qualquer coisa no mundo, a não ser, obviamente, sobre suas receitas psiquiátricas de anti-depressivos e indutores de sono. acha que é um antropófago só porque mistura meleca com baião e guitarra elétrica com arrotos de oswald de andrade. se acha poeta porque escreve coisas muito difíceis e enfadonhas, como a maioria das coisas que são vendidas por aí como poesia séria. aprendeu a lição. vai dormir como um poeta. acordar como um poeta. tomar banho como um poeta. se masturbar como um poeta. cagar como um poeta e adorar ser chamado de poeta pelo porteiro do seu prédio, que nunca leu seus “poemas”, mas viu sua foto no jornal. acha que basta ler baudelaire para perder a risível auréola. não conversa em mesa de bar. dá entrevistas, ou, de preferência, faz palestras transdisciplinares. não faz mais diferença entre esquerda e direita e viaja tranquilamente no dia das eleições. acha que todos os discursos politicamente corretos são corretos. como a maioria dos amigos politicamente corretos, defende as minorias porque a maioria dos amigos politicamente corretos se consideram minorias. acredita que a margem é a margem e o centro é o centro. acredita em papai noel. acha que tudo o que é natural é bom e nem desconfia que tudo o que chama de natureza não passa de um engodo cultural que lhe foi ensinado pelos escoteiros da ecologia. acha que vai salvar a floresta amazônica votando em candidatos do partido verde patrocinados pela natura. acha que é possível gostar de literatura e não gostar de política literária. acha bonito ter amigos artistas e contar isso pros amigos não artistas. apóia todos os projetos de incentivo à leitura e fruição das artes. acha que ler nunca faz mal à saúde. acha que é filósofo porque se formou em filosofia. há muitos séculos confunde inteligência com erudição. está morto e não sabe e, talvez, nem lhe interessa saber. interessa, certamente, aos urubus famintos que, como eu, já não podem apenas rir da falta (de carne e sangue) que cobre esses velhos ossos ilustrados pelos fins do século XXI.

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