//
Acrescente
Artes, Ativismo, Política

Lula é meu pai

Em 2002, passava por uma fase tardia de adolescência e muitos conflitos e elaborações subjetivas faziam parte do meu cotidiano. Foi exatamente no momento em que a vitória de Lula se fez finalmente. Em meus territórios íntimos, tinha certeza de que alguma coisa iria acontecer, que a história linear do meu povo poderia ser mais rugosa, com imprevistos e mudanças de paradigma.
Meu pai só pode acompanhar a trajetória de seu candidato por dois anos. Em 2004, desapareceu por conta de um câncer. Seu Lúcio foi um cara sinuoso e que riscou um caminho peculiar na aposta política para a vida. Batalhou profundamente por um desenvolvimento de classe, da sua: a nova burguesia brasileira, fruto da expansão econômica dos anos de chumbo. Desta feita, quando nasci, em 1981, ele pertencia ao quadro do famigerado (meu julgamento) PDS, o DEM da época. Nas eleições de 1989, votei secretamente na escola em Lula. Meu pai era collorido. Dizia que era por conta do Itamar. Em 1994, FHC, claro. Atingido em cheio pelo neoliberalismo, lotado de dívidas e visivelmente abitido pela concorrência no setor calçadista, meu pai quis uma terceira via, Ciro Gomes.
Na verdade, ele sempre pensou de forma dúbia. Fora inclusive, da justiça do trabalho, onde representava o empresariado, porém, pelos altos, opniou muito mais a favor do empregado do que do empregador. Além disso, foi criado no chão da fábrica, em meio à cola e couros, pregos e parafusos.
Assim, com o tempo, reviu um pouco suas convicções – estava doente desde 1992 e naquele momento, tinha descoberto uma nova maneira de guiar seus negócios e a própria vida. Olhou para o passado e em função da amizade de anos com José Alencar, de filiado ao PDS passou a ser uma apoiador efusivo, inclusive cedendo parte da fábrica para ser um comitê de apoio ao Lula em JF.
Quando se foi, apesar de tudo, sabia que de certa forma, essa figura estava ainda na minha vida. E sim, Lula foi o pai que me sustentou a esperança e a reação diante vários temores. Acredito que se as condições econômicas e sociais que se desenharam não tivessem sido dessa forma, duvido bastante de estar aqui, hoje, me comunicando dessa forma e sobre este assunto. Parece estranho, mas faz todo o sentido pra mim. Lula foi uma espécie de continuação da minha relação, um misto do que era com o seu Lúcio (até mesmo pela distância, mas pela profunda admiração também).
Chorei várias vezes em discursos, emocionado, vendo o ser humano, o espírito das coisas, a tentativa de se criar vida comunitária. Fiquei triste com suas contradições e até votei em branco, em 2006. Mas sabia que ele que obteria o maior número de votos> Só quis dizer que estava decepcionado, mas que não tinha ninguém para poder substituí-lo. Ele era o melhor para todos.
Agora, soube que o mesmo se apresenta em condições próximas daquelas que objetivaram meu pai. Porém da mesma forma como vi que não havia volta para o meu pai, tenho certeza de que é pano rápido para o pai Lula. Fico triste por perceber uma corda bamba sendo colocada embaixo de Dilma. Se Lula cair, o poder não se sustenta. Se Lula recuperar, o que irá ocorrer, ele volta como nunca. Espero que menos vasilina esse meu pai!

Discussão

Nenhum comentário ainda.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Leia!

Tryoka Koletiva

Obvious

Sons & Vibrações

Blog de Fotografia

BLOG

%d blogueiros gostam disto: