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Artigo, Ativismo, Juiz de Fora, Política

Juventude de antes do poder e do agora

Logo que entrei para o curso de comunicação social, me aliei ao movimento estudantil. Primeiro no ambiente da própria faculdade e depois, no geral, por toda a UFJF. Em 2000, nas eleições para o DCE  (Diretório Central dos Estudantes), fiz campanha ao lado de uma chapa composta pela ala jovem das correntes petistas do Trabalho e da DS, frente a uma aliança bizarra – em pleno governo FHC, de representantes da FEA (Faculdade de Economia e Administração), aliados aos tucanos e liberais financistas e da UJS – União da Juventude Socialista (PCdoB). Um casamento teórico entre a jovialidade capitalista e o impulso juvenil por poder, dos comunistas.

Perdemos, claro. No ano seguinte, com a FEA enfraquecida – são ótimos atiçadores eleitorais, mas não querem saber do trabalho burocrático e político dos bastidores. Se entraram, foi para criar redes, como dizem, network – a juventude socialista dominou as relações políticas e econômicas da forma como puderam.

Em junho de 2001, fomos para um congresso da UNE em Goiânia. Fui como um dos delegados da Comunicação, éramos independentes. Apesar disso, seguimos viagem com o pessoal do PT, com as duas alas principais (DS e Trabalho), mas ainda assim, divididas pelos ônibus. Um com mais do Trabalho, alguns independentes e outros da DS. E na proporção contrária, o outro, também.

Lá eu saquei que estava sendo bobo, participando de forma muito distante e assistindo à discursos e relações inacreditáveis. Se vemos os políticos como vaidosos hoje, imagine quanto o são os que estão jovens, hoje! Com tudo a seu dispor, inclusive as variedades do caminho.

Sobrenatural Alienante

Uma eleição deliberativa em plenária têm duas formas de serem contadas: um por um, aqueles que levantam as mãos; ou por contraste visual, quando fica óbvio que a menção foi ou não aprovada ou, teve ou não mais apoio.

O encontro da UNE foi fundamental. Estava doente na época e maneirei, sobretudo na bebida. Ficamos em escolas e tudo era bastante longe. Meninas, meninas e outras diversões prometiam dias inesquecíveis. Mas de lembrança, só me recordo de algumas coisas:

– Os carros paravam para pedestres passarem

– O pessoal da UJS, o governo de situação da UNE, sabia dar uma festa. Eles levaram uma renca de caras meio parecidos comigo (sem entender os mecanismos), um pouco menos cientes, mas sedentos pelo rock´n roll. Fariam qualquer coisa, até mesmo votar de ressaca, para recompensar o carnaval fora de época.

– Bom mesmo foi encontrar com o Tom Zé no CUCA, centro cultural dos estudantes da UFG. Teve show dele de noite, cheguei tarde. Voltei pra casa, no dia seguinte era a grande votação final.

– Pela manhã, uma comitiva do PT chegou para a plenária inicial, ainda no alojamento. Fomos informados sobre as presenças do evento – quais políticos estavam em Goiânia. Além disso, disseram-nos que no PT nacional haveria em breve, a decisão para quem seria o candidato do partido para presidente em 2002. Até então, o que se sabia era de que Lula estava em baixa e o único nome era o de Eduardo Suplicy. Naquele domingo, os emissários vinham para dizer aos mais jovem que Lula havia feito um acordo e conseguira unir algumas alas do partido, tornando-se, novamente, o virtual candidato.

– Lembro que fiquei impressionado com alguns punks que ocupavam o pátio. Foi um contato depois de longos anos, desde quando eles habitavam o centro de Juiz de Fora e eu tinha 3, 4 anos.

Contraste entre o cheio e a borda

A votação foi realizada dentro do “Serrinha” (?), ginásio ao lado do Serra Dourada. Juntos com a Situação, comandada pela UJS e com apoio de outros grupos, principalmente, o dos beberrões, os “delegados” e seus crachás foram designados para dentro da quadra. Lembro a todos que uma “quadra”, possui quatro ângulos retos e, as pessoas apresentam volume ao ocupá-la de forma a ser considerada, por contraste visual, uno, uma unidade.

A oposição, sempre dividida, mas unida em alguns aspectos fundamentais, foi colocada nas arquibancadas superiores, formando assim, uma espécie de linha circular, em volta da quadra, preenchida pela UJS.

Dessa forma, por imposição consensual, as votações foram realizadas. Só não entendo para quê? Afinal, como comparar um circulo vazio preenchido apenas nas bordas com um retângulo cheio de crachás levantados? A eleição estava definida antes de acontecer, óbvio.

Dali em diante, me isolei da política estudantil, até mesmo em função de uma independência espiritual necessária. É difícil cumprir obrigação para aquilo de que não se acredita, pelo menos pra mim.

Porém, não é que anos mais tarde, em uma outra brigada anárquica, no Coletivo Epinefrina, deparei-me novamente com os resquícios da política estudantil ou jovem, no Brasil. Concebemos a ação CamiNADA Ideológica”, uma articulação pela ação social carregada de obviedade, não de relações históricas, de classe, sociais, econômicas etc. Decidimos varrer santinhos jogados  nos arredores de zonas eleitorais, na madrugada das eleições. Sabíamos que o material de divulgação pode já estar separado para a ação ilegal de fazer propaganda no dia da eleição ou ser o que sobrou da campanha, principalmente de concorrentes a cargos do legislativo.

Levamos sacolas, vassouras e saímos recolhendo papéis com cara de gente rindo da gente. Apesar de vários serem os partidos, havia em comum apenas alguns. Notadamente, aqueles que apresentavam nicho eleitoral por perto. Vimos, o Epinefrina, algumas pessoas catando um santinho em um emaranhado de papéis e levando consigo. É a tradicional “colinha” de última hora.

Limpamos 100% de calçadas próximas à quatro zonas eleitorais no centro e em São Mateus, bairro populoso de Juiz de Fora. Não havia quem não apoiasse a causa. Apenas um troçou conosco, nos advertindo que a Demlurb iria limpar a rua, que éramos burros de trabalhar de graça. Poxa, na verdade, talvez tenhamos surpreendido alguém que já saíra de casa pensando no pior, no quanto que teria que varrer e para a surpresa, quando chegasse na labuta, não teria lixo! Bom, oxalá!

Durante a ação, tivemos a ideia de realizar a equiparação santinho/voto. Cada santinho, um voto para o candidato. O que tivesse mais santinhos, ou seja, votos, seria declarado eleito aquele que mais sujou a cidade. Foram mais de 100KG de papel, o que equivaleria quase um milhão de santinhos. Tiramos um percentual aleatório e fizemos a contagem, confirmando-a no geral, pelo “contraste” visual.

Os três primeiros colocados, com mais santinhos espalhados pelas vias públicas de forma ilegal, são três sujeitos com não mais do que trinta e poucos anos. Não tenho certeza sobre um, mas pelo menos dois deles, envolvidos com movimento estudantil.

No próximo pots informo o resultado e impressões!

Fotos: Edson Rodrigues – http://edsonrodriguez.com.br e Luciana Maia

Discussão

Um comentário sobre “Juventude de antes do poder e do agora

  1. Gostei muito do “post”: a forma como você narra a história torna o texto muito agradável de se ler!
    A propósito, estou ansioso para saber quem são os “campeões da sujeira”… (risos)
    Aliás, na última foto, reconheci vários rostos bastante conhecidos… (risos)
    Abraços e sucesso

    Publicado por Vinnicius Moraes | 21/10/2011, 19:09

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