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Let It Beatnik, Literatura

Let It Beatnik

A construção de redes a partir de relacionamentos que acontecem perto e longe de casa, com jovens interessados em experiências poéticas e libertárias, onde se discutem as opiniões políticas, a vida pessoal e os caminhos das artes. Pessoas audaciosas que se reúnem em grupos e levam suas mensagens para as ruas.

O cenário acima pode muito bem aparentar os dias atuais de conturbação financeira em meio mundo e corrupção no resto. Entretanto, são temas e lemas vinculados originalmente há vários grupos ao longo dos séculos. Da China à Galiléia, da revolução da pólvora aos cafés parisienses, da geração perdida aos beatniks. Esses, talvez, aqueles que tenham produzido informação, conteúdo e atitudes fundamentais para que 50 anos depois, a busca por uma liberdade comunitária diante o poder arcaico e moldado em padrões e ritos sociais excludentes.

Let it Beatnik é um projeto que se iniciou na Internet em 2007 pelo blog indies.blog.com (sem novas postagens há meses) e migrou para jackerouac.wordpress.com, onde tento construir encontros prováveis do rei beat-beberrão Jack Kerouac. Já estão postados 39 capítulos dessa saga que contém encontros com grandes escritores, pintores, políticos e outros personagens da política e da cultura da época de Kerouac. A ideia é que o projeto se desenvolva na própria Web e um dia, quem sabe, seja publicado. Por enquanto ainda não houve qualquer iniciativa prática para tal.

Aos poucos irei postando alguns desses encontros e espero que o espírito beat de liberdade e respeito individual possa também contaminar vocês!

Abaixo, o texto de estréia: Kerouac Vs Parker – Jack e The Bird se encontram no leito de morte de uma mulher.

A primeira vez em que encontrei com Bird foi quando Ana Lee Morison estava entregue numa cama vagabunda de hospital. Quando cheguei para visitá-la, um negro em um sofá, usava chapéu e com uma expressão deprimida olhava profundamente para o corpo surrado de Ana Lee. Ele percebeu meu volume se aproximando e como se esperasse qualquer um, me disse: “rapaz, essa garota enlouqueceu a minha vida. Ela estragou mais o meu coração que qualquer droga fodida”. Olhei em seus olhos, cabisbaixos e viciados, mas não parei para respondê-los. Segui adiante. Ele parecia não se incomodar com o cheiro do lugar. Sempre me importo em classificar os bons e maus odores. Geralmente, onde há corpos doentes, há o pior cheiro possível. A doença sai de dentro igual merda, impregna tudo com sua sujeira interna.

Na época eu ainda tinha um lance bem místico, curandeiro. Passei a palma da minha mão direita sobre o corpo de Lee, enquanto a outra pus na sua fronte. Fechei meus olhos e tentei me conectar com a divindade da saúde, queria que renovassem suas forças, que suas células fossem restabelecidas o quanto antes. Mas no momento de pensar sobre isso, um outro tipo de pensamento invadiu minha mente: “porra, se lá é melhor do que aqui, por que Ele iria querer que ela permaneça desse jeito aqui! Se ela se libertaria dessa maldita doença tão logo deixasse a prisão corpórea, por que Ele iria intervir, deixando ela sofrer mais com esse corpo moribundo!” Todavia minhas expressões cristãs não permitiam admitir tais e tais alusões ao bem ou ao mal-estar de ser vivo nesse mundo. Desconectei dessa verdade e insistia em irradiar energias positivas. O homem sentado, intuindo minhas preces, esparramou sobre mim algo que nunca mais saiu da minha cabeça. “ei cara, Ana Lee não quer mais saber desse seu Deus que faz sofrer aqui nessa terra. Ela quer embora, quer voltar para onde seus ancestrais nunca saíram. Deixa ela em paz, cara. Reza pra quem ficou aqui amigo. Ela já ficou numa boa”. Desconcertado, me afastei da cama. Já o reconhecendo, disse ao sujeito,”Ei Charlie, já te vi tocar o suficiente para saber o quão demoníaco é o seu espírito. Se bobear você prefere que ela vá para se livrar desse fardo!” Bird não se surpreendeu com o meu texto, mas triscou sua língua nos dentes. “Ei moço, eu não te conheço, mas acho que não devia falar essas coisas na frente da Lee. Ela ainda tem o direito de morrer sem que dois homens se matem na sua frente”. Alguém já havia me dito mesmo que uma lenda do submundo contava que vários caras se esfaquearam pelo amor de Ana Lee Morison e que muitas vinganças tinha sido realizadas e que muito sangue havia corrido em nome dessa maldita.

Ana Lee Morison foi embora para algum lugar no dia seguinte à nossa visita. Depois disso, ainda encontraria com Bird algumas vezes e em todas ele passou a me olhar como se fossemos velhos confidentes.

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